A unanimidade é Buda

A unanimidade é Buda

Você já reparou que a grande maioria dos textos que lê – não só os publicitários – tenta te convencer de algo, seja físico ou metafísico? Talvez este não fuja a regra, mas o que seria do mundo se tudo fosse poesia abstrata? Empresas de TI têm como objetivo convencer o mercado de que seu banco de dados, seu CRM, seu aplicativo ou última atualização do módulo beta ou teta é a única escolha, a melhor escolha. Líderes religiosos ganham o pão convencendo suas ovelhas a não se desgarrarem da trilha. Ditar regras, criar dogmas ou até fazer uma lista das melhores práticas de SEO – é só acessar meu blog em http://www.blogossauro.com.br – é inerente ao homem, desde a pintura rupestre até o SMS. Faça assim e não assado, ore assim, senão você não alcança, dirija sua companhia segundo os papas da administração, do marketing e de vendas senão você dança, senão você cansa e dança.

Meu Deus, onde ele quer chegar? Será que quer que façamos tudo ao contrário do que pregam? Claro que não. Compartilhar o conhecimento é primordial para o futuro, aprender com seus erros e principalmente com os dos outros, idem. Para implementar uma estratégia 6 sigma (caramba, essa é rupestre, hein? ) ou tornar seu website doispontozero é preciso seguir algumas regras, ajoelhar-se diante de alguns gurus e rezar um certo missário. Onde está o problema, então? Na ortodoxia e na falta de malemolência, na certeza cega e na literalidade muda, inquestionável.

Para cada IPO multibilionário, existe uma empresa familiar de capital fechado, sem planejamento de sucessão, que é sucesso, com o perdão do trocadilho. Para cada case de e-commerce em código aberto e licença GNU, existe uma loja virtual do mesmo tamanho, construída em plataforma hermeticamente compilada, com licença por login de acesso. Para muitos, importa mais o meio do que o fim, outros nem começam com medo do meio, enfim, “case” é o que não falta em qualquer dimensão de nossa vida profissional, pessoal, cultural, social ou espiritual. Mas acredite, existe um “anticase” com tamanho proporcional ou maior. Tem gente que bebe vinho e vive até os 120, tem gente que bebe vinho e não passa dos trinta. E nem precisa dirigir. Tem empresa que usa Oracle e está na lista das 500 da Fortune, tem empresa que usa Oracle e está prestes a quebrar. O problema não é o Oracle, nem o vinho, mas a dicotomia.

O homem então criou as estatísticas e as recomendações com estrelinhas, as projeções e os profetas e Nelson Rodrigues criou a unanimidade burra. Ela é pior do que a ingovernabilidade do fifty-fifty? Não sei. Cabe a você acreditar ou não. Com a Internet e a super era do bombardeio de informação, acreditar ou não ganhou uma cara mais dramática. Então disse Deus: “Façamos o coaching”, palavra bonitinha para divã. Uma adolescente australiana manda um e-mail para seu círculo de amigos alertando sobre a chegada de seres extraterrestres, os jornais dão capa, os ETs não chegam e muita gente ficou ou ainda está ansiosa ou apreensiva. Vivemos na era do excesso de verdades, de certezas duvidosas, onde a imprensa diz que é, antes mesmo de apurar, antes da polícia investigar, antes do júri condenar. Se não é, who cares?, o compromisso é com a área comercial e não com a ética. Mesmo assim, cometo o abominável ato da generalização, pois a imprensa é fundamental para a ética, o coaching essencial para a troca e perpetuação de experiências, mas, posso estar completamente iludido, em ET não acredito não.

Quer algo mais dogmático que uma citação? Um koan zen-budista disse – não sei bem se com essas mesmas palavras – que se Buda aparecer na sua frente, dê um tiro nele. Literalmente é um horror, mas o que vale é a sutileza da metáfora. Buda tem que estar dentro de você e não fora. O mesmo vale para toda informação que aparece na sua frente, inclusive esta. Antes de seguir piamente, conceda-se o benefício da dúvida, conceito feinho para intuição. Posso estar completamente enganado, mas, como diria Mário Quintana, a resposta não importa nada e sim a pergunta bem formulada.