A Estratégia da Crise

Crise é resultado de ganância, todo mundo sabe. Acumula-se além da conta de um lado, inclusive especulando sobre dinheiro inexistente, e o resultado é que vários outros lados acabam vendendo o almoço para pagar a janta. Sou avesso a generalizações, mas o maior problema dos terráqueos é querer ser o maior. A maior montadora, o maior banco, a maior imobiliária, o maior grupo de comunicação. Raros os que pensam em fazer o melhor. Para muitos, o importante é ganhar mais para ter mais e não melhorar mais para ser mais.

Você lê que Itaú e Unibanco se juntam e formam o maior banco do país. Para chegar a este ponto, ambos tiveram que passar por cima (quem quer ser o maior invariavelmente faz isto) de muitos outros e também de seus próprios clientes, que convivem com um spread bancário de 11 – eu disse 11 – vezes maior do que em países desenvolvidos. Como vivemos em um país onde banco não banca, só a si próprios, o desequilíbrio é visível. Acho que foi Lenin quem disse certa vez que pior do que assalto a banco, só mesmo o próprio banco, que lhe vende guarda-chuvas quando faz sol e toma quando começa a chover.

O mesmo ocorre com as montadoras. Para que mais carros? Por que não mudar de ramo e investir no transporte coletivo? O número de novos automóveis bateu a casa dos 2 bilhões neste ano com um terrível detalhe: 1 bilhão nos últimos 10 anos contra 1 bilhão desde a invenção, no início do século XX, até o meio da década de noventa. Se seguir neste ritmo, vão ser 6 bilhões antes de 2020. Esse é o objetivo? Um carro para cada habitante? Existem garagens, malhas rodoviárias e oxigênio suficientes para todos nós, carros e seres humanos?

Querer ser a maior é a pior estratégia para uma companhia, porque mostra que ela só pensa no curto prazo e em si própria, mesmo que gaste um dinheirinho aqui ou ali em fundações beneficentes e blá-blá-blás sobre responsabilidade social. Não funciona no longo prazo, é inviável. Ou ela destrói o que está ao seu redor ou não há crescimento possível e isto cai naquela história da roda e a destruição acaba voltando ao ponto de partida. A estratégia possível é aquela cujo foco é fazer o melhor mas, para isto, é preciso um entendimento muito mais abrangente da função social, cultural, econômica, ambiental e até mesmo espiritual do que é ser uma empresa.