TV 2.0 não precisa de sofá

Lembra quando o Brasil tinha quatro ou cinco canais de TV e a programação deles era mais ou menos igual, com programas femininos pela manhã, filmes a tarde, novelas e telejornais no horário nobre e mais filmes na madrugada? Foi assim durante uns 30 anos, desde a invenção da TV. Nos anos 80 apareceram uns canais diferentes, via UHF – como uma tal de MTV – que colocaram mais molho no ato de ver televisão.

Na década de 90, surgiram as TVs por assinatura e o zapping foi inventado para nos ajudar a encontrar ouro em uma programação repleta de cascalho. Ainda assim, era a TV que determinava seu horário. Você só podia encontrar sua pepita de ouro as 21:30h de quarta-feira e, talvez, em uma reprise no sábado a tarde. Se não estivesse em casa na hora do programa, ou você o gravava em um video cassete, ou esperava a tal reprise, se acontecesse. Tudo recheado de intervalos comerciais. Era bom para as TVs, era fácil para os anunciantes, era tranquilo para o profissional de mídia montar um plano, era perfeito para os estúdios e produtoras de conteúdo.

Isto é passado, apesar de algumas emissoras e programadoras ainda acharem que podem voltar no tempo e usar aquele modelo citado acima, cada vez mais decadente, no formato e no Ibope. A TV mudou muito e está prestes a passar pela maior mudança de sua história. Sei que se fala em TV interativa há mais de dez anos, mas era tudo muito teórico e inviável do ponto de vista tecnológico e financeiro.

Mas a mudança está aí: a TV agora é sua, você a programa com videos, filmes e o que mais quiser ver, na hora em que quiser, sem a interrupção do sujeito careca vendendo Capiloton ou de um urso cantando para você beber Coca-Cola. Você também pode comprar a camiseta do herói ou a pulseira da mocinha enquanto assiste seu programa. Para a parte sobre assistir, basta plugar um computador com Internet na sua TV e virar seu próprio Boni. Para a parte sobre clicar e comprar, fique ligado no Tivio e suas possibilidades de interação sobre o vídeo.

Graças à banda larga e ao Youtube, que democratizaram a distribuição e – por que não? – a produção dos vídeos através da facilidade de se apertar um botão e rapidamente se colocar no ar, hoje é possível alcançar a audiência mundial e, quem sabe, tornar-se uma celebridade instantânea. Não acredita? Pergunte ao Rafinha Bastos, ao Danilo Gentili, à Mallu Magalhães ou à Susan Boyle o que eles seriam sem o Youtube. No mínimo, levariam uma década ou mais para construir a fama que fizeram em meses.

TV 2.0 é primetime anytime, ou seja, você é o dono do seu horário nobre, faz ele acontecer na hora em que bem entender e, mais do que isto, onde bem entender. A TV também saiu da sala, foi para o quarto, para a cozinha, para o carro, para as ruas, para os celulares. Ótimo para os telespectadores, que podem ser chamados agora de teleinterativos. Um grande desafio para as TVs estabelecidas, que precisam inovar e se adaptarem às plataformas de TV interativa, para anunciantes, que já não podem mais interromper e têm que encontrar meios de dialogar com seu público alvo sem serem intrusivos, profissionais de mídia, que viram seu plano de quatro a cinco canais passar para milhares, talvez um para cada usuário, e as tradicionais produtoras e estúdios que, apesar de saberem que o conteúdo é rei, podem ser destronados pela pirataria patrocinada pelo peer-to-peer com banda de 100megabits. E, neste caso, o corte pode ser mais profundo do que o vivido pelas gravadoras, já que o músico, pelo menos, tem os shows para ganhar dinheiro.

Este drama tem uma sinopse bem simples: aguarde, em seu sofá, as cenas do próximo capítulo ou baixe todas as temporadas para o seu celular e assista e interaja enquanto vai para o trabalho. Luz, câmera… interação!