Nós e os nós – Start-ups neurais

Dia desses li um artigo do Dagomir Marquezi que, descrevendo uma visita ao futuro,   discorria sobre o mercado de trabalho daqui há vinte anos, informal, um mundo de freelancers em seus home-offices, prestando serviços e/ou vendendo produtos em troca de créditos que poderiam ser trocados por outras mercadorias, por comida, pelo leitinho das crianças. Não vou entrar em bla-bla-blá conceitual sobre economia, fazer análises marxistas sobre salário, acúmulo de bens, muito menos sobre questões smithianas acerca do valor do trabalho, já que não acredito em nenhum modelo macro econômico “vencedor”. Somos um bando de indivíduos e, qualquer modelo coletivo, seja ele baseado na abundância ou na escassez, esbarra na insatisfação de uns ou de muitos. O ideal macro econômico é utópico, assim como o planejamento estratégico. O mundo só funciona em micro ações para micro grupos em micro períodos. Planos devem ser feitos e encarados apenas como guia, um meio de não sair muito da estrada e, ainda assim, estão sujeitos a riscos, atalhos e mudanças bruscas de trajetória. Para cada grande plano maquiavélico, existe sempre os subversivos da resistência que, invariavelmente, acabam destruindo a Estrela da Morte ou derrubando os muros. Portanto, fiquem tranquilos: ninguém vai dominar o mundo.

Mas voltando ao tema, o mercado de trabalho como o conhecemos e a relação patrão e empregado (patrão versus empregado, para alguns), que tem como base o lucro de um sobre o trabalho de muitos, regulada por leis de quase cem anos atrás, discutida através de acordos sindicais, greves e paralisações, em uma queda de braço onde a percentagem do patrão acaba sempre maior que a dos dissídios coletivos, vão experimentar mudanças drásticas nos próximos anos. Obviamente, a tecnologia será a grande “culpada” e as redes sociais as cúmplices. Imaginem um mundo sem pessoas jurídicas, somente pessoas físicas trabalhando por interesses comuns em todas, absolutamente todas as áreas comerciais, industriais e de serviços. Muito mais do que uma cooperativa, que é uma propriedade coletiva, a idéia é não haver propriedade, não existir um dono, um patrão.

Vou tentar desenhar como uma start-up: alguém tem uma idéia de criar um serviço online para a criação de capas para Facebook e deposita a idéia em um sistema que vai geri-la. No cadastro do projeto, o depositário – vou chamá-lo de N1 – descreve a idéia e a publica. Ainda no campo da “criação”, outros nós – N2, N3 – podem colaborar no aprimoramento da mesma, detalhar o plano de negócios, incrementar com dados de mercado, enfim, refinar tudo o que se refere ao plano da idéia. Pesquisas podem ser feitas para avaliar a aceitação junto a diversos outros nós da rede, especializados em marketing, em vendas, em finanças, em tecnologia etc. Com muitos “thumbs up” a idéia passa, então, para o plano da formação. Um tal de N4, especialista em tecnologia, faz um protótipo para que outros “enes” testem com algo mais palpável. “Investidores” podem colocar créditos no projeto para motivar. Novas avaliações positivas e o projeto se desdobra, com mais gente cobrindo as diversas necessidades, até que, completado, entra em ação, com webdesigners e outros “igners” movimentando e dando suporte, pronto para ir ao mercado. Cada nó da rede, desde o princípio até os que fazem a roda girar, ganham créditos com base no tempo e nos créditos que empenharam nas diversas etapas da nova pontocom. É claro que isso não vai funcionar para todo mundo, pois sempre vai existir o capitalista selvagem, o troglodita do acúmulo, mas, se alguns grupos quiserem viver e trabalhar desta forma, por que não? É mais claro ainda que, uma parte dos créditos teria que ser destinada ao dinossauro mais faminto, o Governo. Mas e se o Governo também fosse neural, construído da mesma forma? Funcionaria para você? Alguém disposto a fundar a Neurolândia?

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