A TV está morta. Vida longa à TV.

A TV morreu, basta olhar para fora da sala. Deixou de ser uma caixa fechada onde famílias inteiras se reuniam as oito da noite, diante de um ou dois canais, para ver uns poucos programas comandados por grandes talentos. Deixou de ser distribuída através de transmissores e retransmissores que davam ao Bombril a utilidade mil e um: regular a antena para melhorar o sinal. Deixou de ser soberana no destino dos investimentos de propaganda das grandes marcas, basta ver os dados de participação do bolo publicitário dos últimos anos. Mas esta mudança não é novidade, muito menos algo que aconteceu da noite para o dia, inclusive já foi assunto de um post há três anos atrás.

O objetivo aqui é debater este novo modelo, onde as facilidades de produção, com ferramentas cada vez mais amigáveis de captação, edição e pós-produção, já não tornam o talento indispensável. Um modelo onde o conteúdo já não é mais somente possível se financiado por grandes distribuidores e produtores, mas pode ser monetizado através de adsenses, crowdfunding e bolsos mais rasos, graças aos menores custos de produção. Um modelo onde a distribuição feita por ar ou por cabo, invariavelmente tinha saída em uma única caixa fechada na sala e que hoje sai na TV conectada, em set-up boxes como Apple TV, Boxee e Google TV, no computador, no laptop, no console de games, no smartphone, no tablet, na Internet das coisas. Mas a mudança mais dramática foi na forma de descobrir o que assistir. Saímos de um mundo onde girávamos o seletor entre meia dúzia de canais, de um controle remoto para zapear duzentos canais, da meia página de programação dos jornais, da revista de programação da TV por assinatura, para um mundo que exige habilidades de detetive para encontrar ouro no meio de pedregulhos distribuídos em milhares de aparelhos, milhões de aplicativos, bilhões de opções de vídeos. O que antes era resolvido com marketing, chamadas durante os intervalos comerciais, hoje precisa ser resolvido com eficiência nas buscas nas múltiplas plataformas, recomendações de usuários e compartilhamentos dos amigos.

A fragmentação tomou conta de todas as pontas: nos aparelhos, com diferentes sistemas operacionais proprietários nas múltiplas plataformas. A Netflix, por exemplo, tem versões de seu software para mais de oito mil sistemas; no conteúdo, a fragmentação faz com que cada canal, cada distribuidor, cada exibidor e cada produtor lance seu próprio aplicativo, com diferentes formas de cobrança e sem um modelo consistente de utilização entre as “janelas”. As opções também cresceram: o Youtube recebe 48 horas de novos vídeos por minuto, a Amazon criou um studio, a própria Netflix está produzindo filmes, seguindo a escola da HBO; e há a fragmentação na publicidade, onde não existe padronização de formatos, variações absurdas de preços, uma centena de AdNetworks e diferentes relatórios para medir performance, cada um com sua métrica, cada um com seus KPIs.

A nova mídia é bem diferente da antiga. A negação disto fez e ainda será responsável pelo desaparecimento de muitos, antes poderosos, grupos de comunicação. Hoje, a linha que separa os modelos de negócios é praticamente invisível, com fabricantes de TV querendo ser rede, canais de TV querendo ser distribuidores, produtores de conteúdo querendo ser canais de TV. Quem vai ganhar essa briga? Nenhum deles. Vai ganhar quem dominar o quadrilátero criação, busca, monetização e consumo. Hoje, este campo de batalha tem cinco grandes players: Apple, Google, Amazon, Facebook e Microsoft. Todos os outros são apenas coadjuvantes. Do lado dos espectadores, ganha-se com a competição, com abundância de opções e gratuidade, mas perde-se em liberdade. A Web aberta também agoniza, passaremos a habitar a Web fechada das redes sociais, vídeos e aplicativos. Mas a TV está aí, em todos os lugares, com todos os conteúdos do mundo na hora em que você quiser, com um mundo de oportunidades de publicidade. Viva a TV.

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