Conte Antes de Mostrar

conte-antes-de-mostrar-eldes-saulloQuem nunca encarou uma página em branco, aquele momento ou eternidade quando as ideias saem para comprar cigarro e não voltam nunca mais? O bloqueio criativo faz parte do universo do escritor, uma espécie de lua minguante no calendário de quem vive da escrita. No desespero, você parte para relaxamento, meditação transcendental, mudança de ares, caderninho de anotações e diversas outras técnicas para trazer a amada inspiração de volta em três dias.

A grande verdade é que tudo não passa de uma grande lenda urbana – ou rural, se você é do tipo ermitão que escreve. Queria usar eremita da escrita, mas soaria muito poético e a prosa aqui é séria. Em minha opinião, o bloqueio criativo é uma lenda literária alimentada – que aliteração horrível – pela preguiça, pelas distrações e pela falta de método e disciplina.

A boa notícia é que, mesmo para os preguiçosos, distraídos, desorganizados e indisciplinados, existe uma técnica muito eficiente para mudar a conjunção astral a fórceps e trazer a história à luz, iluminar os passos do herói sem desvios na estrada e, por consequência, gerar a esperada transformação no leitor sem perder tempo com estados letárgicos reticentes diante da tela vazia e… vazia…

Mostre ao invés de contar

Todo escritor que se preze já está cansado de ouvir que é preciso mostrar ao invés de contar (“Please, show, don’t tell!”), que é preciso mostrar o reflexo da lua em um caco de vidro ao invés de simplesmente contar que ela está brilhando, segundo Tchekhov. Que mostrar é como ver um filme no cinema – o leitor é capturado e imerge em um rio de imagens – e contar é como ouvir aquele seu amigo chato narrando a cena na mesa de um bar às quatro e meia da madrugada. Para escrever bons livros é preciso mostrar ao invés de contar, diz o mandamento.

Porém, nada contribui mais para o tohuvabohu criativo, para o bloqueio desesperador, do que tentar escrever “mostrando”. As palavras desaparecem como as verbas públicas, vão parar em um cofre nas Ilhas Cayman sem deixar registro, nem mesmo uma pista do momento em que se desviaram. Você tenta mostrar a mocinha tentando se enfiar em uma calça jeans apertada para não dizer que ela está acima do peso, mas nada acontece, a história empaca, as nuances da personagem e da trama dão as mãos e se perdem no limbo existente entre o computador e a cadeira.

Eu era assim. Diante da falta de ideias, a preguiça me levava para o Facebook ou para a TV e, a partir daí, nada mais andava e a vida improdutiva bafejava enquanto eu curtia e comentava um ou dois posts ou assistia a um episódio de How I Met Your Mother.

No entanto, uma técnica espetacular mudou minha vida. Confesso que fiquei uns dias em estado de choque por conta da sua simplicidade. “Estava na sua cara o tempo todo, seu idiota!”, disse o bad guy que mora em um puxadinho no lado oeste da minha cabeça. “Não é tão simples assim, meu filho”, retrucou o padre franciscano que divide o quarto com ele. Mas entreguei os pontos e reconheci que o padre estava errado, era mesmo uma fórmula muito simples para resolver a questão do “deu branco”.

A fórmula é: “conte antes de mostrar”.

Isto mesmo. Faça o papel do seu amigo pentelho e conte a cena antes, faça uma lista numerada ou com bullets, tipo aquele Power Point mais chato ainda que seu chefe apresenta na reunião de segunda-feira às oito da manhã. Liste tudo o que acontece com a personagem sem se preocupar com nada mais além de simplesmente “contar”.

Conte a cena toda antes:
“Ela entra na sala com a perna sangrando. Ela veste um jaleco e pensa em sua vingança. Ela precisa chegar até o computador do vilão, mas a sala é cheia de câmeras. Ela, então, se arrasta pelo chão até a mesa. Ela insere o pendrive no computador.”

Ou liste:
• Ela entra na sala com a perna sangrando.
• Ela veste um jaleco e pensa em sua vingança.
• Ela precisa chegar até o computador do vilão, mas a sala é cheia de câmeras.
• Ela se arrasta pelo chão até a mesa.
• Ela insere o pendrive no computador.

Depois de contar ou listar cada evento e cada cena da sua história, você poderá encarar a “fase de mostrar” sem medo da insônia, sem medo de não saber para onde ir. Então, como um rei seguro de seu reino, você se senta diante do computador com sua história toda amarrada, planejada, estruturada para poder voar e, agora, muito mais do que isto, você sabe exatamente o que fazer, fica completamente livre para viajar na maionese e “mostrar”:

“A fechadura estalou e consegui entrar. A dor mastigava meu tornozelo, mas minha imagem de menina boazinha não existia mais. Nada seria capaz de apagar o rastro de sangue que deixei e desistir não era uma opção. Àquela altura, ele já sabia muito bem do que eu era capaz. Apalpei o bolso do jaleco para confirmar se minha salvação ainda estava lá. Pelo vão percebi pontinhos azuis cintilando no teto, inocência a minha achar que a sala estaria limpa, sem vigilância. Ainda bem que o corredor era um cemitério, nem mesmo um alarme estragaria minha noite, o silêncio continuou do meu lado. Esgueirei-me pela fresta e, às cegas, arrastei meus cotovelos por entre sofás até a mesa de vidro no fundo da sala. Naquele breu, minha bússola era o zunido da ventoinha. Com esforço, cheguei até a poltrona de couro que conhecia muito bem, enfiei a mão no bolso e retirei o pequeno dispositivo preto de dentro dele. Por alguns minutos fiquei ali, como um corpo morto sob a mesa, observando aquele minúsculo objeto que mudaria meu destino de uma vez por todas. Depois de todos estes anos bancando a sonsa no castelo, depois de assistir àquele imbecil sem escrúpulos destruir minha carreira, não me contive e sorri só de pensar que bastaria conectar um simples pendrive em seu computador e tudo estaria acabado.”

Espero que esta técnica também te ajude a se livrar dos fantasmas de branco.

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