A Escola de Terror de Tiago Toy e Gabriel Réquiem

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Livros de terror faturaram 80 milhões de dólares em 2014. Na área de autopublicação, o gênero foi responsável por 20% das vendas, segundo o Authorearnings. Sim, o mundo está repleto de gente que adora borrar as calças de medo e este é um nicho muito promissor.

Esta semana entrevistei dois jovens mestres do gênero no Brasil: Tiago Toy e Gabriel Réquiem, ambos com obras publicadas através da Editora Draco, mas que têm participação fundamental no marketing dos seus livros.

Tiago é autor da trilogia “Terra Morta” e dos livros “Não Se Preocupe, Mamãe. Ficaremos Bem”, “Ignácia”, “Três Assobios” e “Teoria e Prática de Como Ser Um Zumbi”, disponíveis na Amazon Brasil.

Gabriel é autor de “O Senhor do Vento” e “O Último Evangelista”, também à venda na Amazon.

Confira suas opiniões sobre escrever e promover livros com histórias aterrorizantes no mundo conectado de hoje:

Eldes Saullo: Por que você escreve e por que escrever terror?

Gabriel Réquiem: Eu cresci inventando tramas com meus brinquedos, depois, fiz o mesmo com Jogos de RPG. Acho que a literatura foi a maneira que encontrei para continuar brincando na fase adulta (risos). Tenho maior respeito pelos autores que criam reflexões profundas em seus romances, mas no meu caso, é puro entretenimento, embora possa surgir um subtexto ocasionalmente.

Quanto ao terror, foi meu primeiro contato com literatura, sem aquela obrigação de ler na escola. Não tenho nenhum problema com o rótulo de gênero, mas não penso nisso quando escrevo. Faço literatura especulativa de um modo geral; tenho projetos em fantasia e ficção científica, por exemplo. Gosto de misturar e criar coisas inesperadas, mas o horror acabou se transformando numa espinha dorsal nos trabalhos que publiquei.

Tenho muita influência de escritores como F. Paul Wilson, Dean Koontz, Clive Barker e H.P. Lovecraft, então, me sinto confortável escrevendo sobre temas sombrios. Funciona de maneira natural, quando sento diante da tela branca.

Tiago Toy: Jogando a real sobre a mesa, não sei de fato porque escrevo. Sou um cara inconstante, imprevisível. Já participei de realities musicais (Popstars e High School Musical – A Seleção) cantando, dançando e atuando, fiz figuração na Globo, fui modelo, gosto de desenhar, tenho o desejo de sair pelo mundo apenas fotografando e sem ter que me prender a nada nem ninguém. E escrevo.

Sou um cara que pensa muito; minha cabeça está sempre à todo vapor. Nesse vai e vem de engrenagens girando na cuca acabo construindo histórias boas demais para se perderem nas ondas cerebrais. E por isso escrevo. Ou talvez eu só queira ficar famoso.

Escrevo terror pelo mesmo motivo que escritores de romance escrevem romance, ou escritores de espionagem escrevem sobre espionagem: eu gosto. Alguns provavelmente escrevem determinados gêneros por encontrar na estratégia um caminho mais fácil para vender, mas se você não gosta, ou no mínimo não se identifica de alguma forma, então não funciona. A não ser que você contrate um ghost writer e meta seu nome na capa. Por exemplo, não me vejo escrevendo um livro de romance daqueles que te dão diabetes. Acabaria puxando para o porn torture.

Eldes Saullo: Como você começou a escrever? Quais foram seus motivadores e onde busca inspiração?

Tiago Toy: Quando estava (se não me engano) na sexta série. Antes disso adorava desenhar; deixava minhas professoras de Artes de queixo caído. Me dava muito bem nas aulas de Português, principalmente quando tinha que criar redações, e especialmente quando o tema era livre. E lá ia eu escrever sobre amigas universitárias presas em vilas assombradas por vampiros, ou sobre ônibus escolares perdendo-se na estrada e resultando na morte de cada um dos alunos em uma casa possuída nos arredores. Tudo muito fofo.

Não me recordo de histórias que tenha escrito na adolescência além de Terra Morta. Comecei a escrever em 2008 em um blog, em 2009 fui descoberto por uma editora, recebi o convite, e em 2011 lancei meu primeiro livro. A escrita acabou se tornando parte de mim a partir de então.

A motivação para continuar escrevendo se deu graças aos comentários dos leitores do blog. É ótimo quando você recebe algum tipo de retorno satisfatório; se não é financeiro, que sejam resenhas e críticas construtivas. Quando escrevia no blog, de graça, o feedback era constante. Eu era o único responsável pela divulgação de algo que fazia por prazer, um hobby.

Quando você se alia a uma editora, o certo é se preocupar unicamente com o livro, uma vez que agora você não escreve mais somente para você, não é mais um hobby, mas um contrato. Uma pena que isso não acontece e você precise se virar do avesso para escrever, revisar, e ainda divulgar. Além disso, é frustrante se dedicar a um livro por tempo demais, e receber retorno de menos.

Todos os dias leitores vêm me dizer por e-mail ou inbox no Facebook o quanto amaram o que escrevi, e é muito bom, mas a melhor coisa que um leitor pode fazer por um autor é apresentá-lo a outros leitores e falar dele publicamente. Você não faz o trabalho todo sozinho. Eu não pago por resenhas nem nada do tipo, mas mesmo assim não posso me contentar com a escassez de feedback público. É preciso ter força e paciência para continuar trilhando esse caminho.

Quanto a inspiração, ela poderia vir com o simples toque de um botão. Para mim, estar inspirado é estar bem comigo mesmo, estar com a mente em paz. Se há algum conflito acontecendo na minha vida, é impossível escrever.

Gabriel Réquiem: Eu era o único mestre de RPG no meu grupo e acabava projetando todas as aventuras.  Com o tempo, as histórias ficaram mais elaboradas e alguns jogadores acharam que eu deveria direcionar essa criatividade para romances. Claro que escrever RPG e literatura são mídias diferentes e transcrever as sessões de jogos não daria certo.

Conforme fui entrando em contato com autores do gênero, fiz a transição dos jogos para os livros. Percebi que era divertido contar histórias e fui estudar técnicas narrativas. Obviamente, as primeiras experiências foram sofríveis. Levei dez anos para que escrevesse algo minimamente publicável, que foi o meu conto “O Senhor do Vento”, editado em Portugal e no Brasil pela Saída de Emergência, hoje disponível gratuitamente pela Draco na Amazon.

Minha inspiração surge em contato com bons romances e outras mídias. Há muito dos filmes de David Cronenberg e dos quadrinhos de Alan Moore em meu trabalho, mas não para por aí. Videogames como Silent Hill são uma excelente fonte visual para quem escreve ficção sombria.

Quando sento para escrever, tento imaginar coisas transgressoras, pois a função da literatura de horror sempre foi empurrar os limites de nosso falso moralismo. Nesse ponto, ninguém me influenciou mais do que Clive Barker. Atualmente, estou gostando muito dos trabalhos de Michael Chabon, Caitlín Kiernan, John Ajvide, Jim Butcher, Eric Novello, Cesar Bravo e Mark Lawrence.

Eldes Saullo: Existem diversos métodos para estruturar livros, fazer mindmaps, criar índices antes de escrever, fazer brainstorms de capítulos e subcapítulos, entre outros. Como você planeja seus livros?

Gabriel Réquiem: Eu elaboro a trama geral num texto corrido e escrevo um resumo do final da história. O resto deixo fluir naturalmente. É mais trabalhoso; vou costurando, reescrevendo até ficar de um jeito que me agrade. Normalmente, quando acabo um trabalho, tenho 8 ou 10 versões da história. Deixo-a descansar por algumas semanas e faço a releitura com um olhar extremamente crítico. Vou cortando tudo o que é excesso: adjetivações, advérbios, frases confusas, inconsistências e até capítulos inteiros se eles não acrescentarem nada. Uma vez feita essa triagem, envio para as minhas agentes que quase sempre sugerem mudanças valiosas. Após o feedback da Increasy, monto a versão definitiva.

Tiago Toy: A ideia surge em minha mente, uma sementinha. Ou um estalo. Geralmente acontece quando estou deitado, indo dormir, ou no banho. Eu me silencio e massageio aquela ideia como uma massa de pão. Busco formatos, tento descobrir até onde posso puxar a massa. Depois disso, basta colocar a ideia inicial no papel. Um breve resumo. As outras vão vindo, e eu, anotando. Não dá para forçá-las. Elas acontecem. Pode ser vendo um filme, ouvindo uma música, presenciando alguma situação real. O braimstorm, no meu caso, acontece por vários dias, semanas, meses, enquanto vou alimentando o arquivo com as ideias que vão aparecendo. Depois é sentar, organizá-las de um jeito coerente, e escrever.

Eldes Saullo: O Marketing Digital facilitou muito a divulgação de livros, principalmente e-books. Como você promove seus livros?

Tiago Toy: Além da série Terra Morta, lançada pela Editora Draco, vendo contos na Amazon e na lojinha do Facebook. Sou melhor como escritor do que como vendedor. Acabo promovendo mais a minha imagem pessoal como formador de opinião (ou um grande e arrogante pé-no-saco) do que meus livros. Mas consigo; até que vendo bem na Amazon. Porém, mais uma vez, ou faço o trabalho de autor, ou faço o trabalho do marketing.

Gabriel Réquiem: Sim, facilitou. Quando comecei a escrever não havia e-books e as editoras sob demanda agiam com contratos dignos de um pacto com o demônio. Hoje, você pode se comunicar diretamente com seu público nas redes sociais, mas é um trabalho lento, de persistência. Leva tempo para encontrar seus leitores e mais tempo ainda para que eles o encontrem. Achar que vai se tornar um best-seller no primeiro trabalho é ilusão.

A internet é boa para divulgar, mas o autor precisa ter noção da diferença entre “promoção” e “encher o saco do leitor”. Isso significa evitar spams em todos os grupos de literatura. É mais válido oferecer seu trabalho a blogueiros que farão o boca a boca naturalmente.

A outra parte da divulgação vem da editora, contudo, é preciso ter em mente que esse é um trabalho de equipe entre escritor, editor e agente; você precisa estar disposto a se vender. No fim das contas, sua história é um produto e não há nada de errado em receber por isso, afinal, é um trabalho como outro qualquer. Sacralizar a literatura é meio romântico, pelo menos em minha opinião.

Eldes Saullo: Deixe uma dica para os leitores do blog.

Gabriel Réquiem: Mate seu ego e ouça as críticas, principalmente de seus agentes e editores, eles estão aí para te ajudar. Fuja de empresas que cobram para publicar; se a editora quer que você pague, provavelmente não acredita no potencial do seu trabalho e não fará nada para promovê-lo. Preocupe-se com sua carreira e pare de invejar os colegas.

Tiago Toy: Se estão nessa pela fama ou dinheiro, nem continuem. Vai poupar muita frustração. Se escrevem porque amam, se sentem o fogo nas palavras, se acreditam que poderão mudar ou tocar vidas, vão fundo. Não é somente o que você quer, mas o que os outros precisam — e se precisam do que você está disposto a dar.

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