Você Tem Coragem Para Escrever Terror?

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Por que você escreve? A meu ver, o homem escreve por quatro motivos: para buscar um sentido para a vida, para sentir-se vivo, para deixar algo para a posteridade ou para mudar o mundo. Em todos eles, existe a busca pelo autoconhecimento, pela transformação.

Por que cargas d’água, então, você escreveria um livro de terror?

Que sentido Mary Shelley encontrou ou o que a fez sentir-se viva ao escrever Frankenstein? Uma simples lida no discurso da criatura ao reencontrar seu criador nos dá uma vaga ideia, mas é impossível saber a fundo. Sei apenas que ela nos deixou um monstro eterno e que mudou o mundo das histórias de assombração para sempre.

Um dos impulsos humanos mais básicos é fugir da dor, cuja origem está no medo da morte. O medo é o instinto de sobrevivência que inspirou o homem das cavernas a buscar o fogo e, graças a ele, descobrimos como iluminar a vida.

Escrever terror é uma forma de compreender, lidar e até mesmo superar muitas fobias que têm origem em nosso Ego. Não quero entrar em questões psicanalíticas, mas é preciso levantar alguns pontos para melhor responder a pergunta.

Ao mesmo tempo em que nos assusta com sua camada de entretenimento e catarse, a ficção de horror nos preserva. Por ser o gênero que fala mais próximo do instinto básico de sobrevivência, permite um mergulho intenso na dualidade entre o ser espiritual e o ser animal que habitamos. A exposição ao terror nos conduz à abstração, mas a força do medo nos previne do isolamento e da vulnerabilidade.

Ao encarar as possibilidades que vão além da explicação científica, abrem-se caminhos para as ambiguidades dos pontos de vista internos. Além disto, podemos perceber como somos seres imersos em uma cultura onde prevalece o mundo exterior.

O lado negro da força

Para compreender o terror é preciso entender o impulso que nos leva a ler notícias sobre desgraças, o mesmo que nos faz desacelerar para ver um acidente na estrada ou nos leva ao cinema para assistir Jogos Mortais. Nosso cérebro é fascinado pelos tabus da alma, principalmente aqueles que estão além de nossa compreensão, os obstáculos além da matéria.

No entanto, quando você ultrapassa um obstáculo, você soma mais pontos na trajetória do autoconhecimento. O gênero terror permite esta transcendência de uma forma mais efetiva do que qualquer outro tipo de ficção.

Desta forma, considero escrever terror como uma espécie de psicanálise, pois podemos lidar com questões existenciais universais. Você não precisa ser mau para escrever terror, muito pelo contrário. Precisa ser muito bom! Más pessoas tenderão a escrever terror de baixo nível e o objetivo aqui é justamente o oposto.

Portanto, escreva terror para se autoconhecer. Você poderá escrutinar seus anseios, suas prisões mentais e espirituais. Escreva como uma forma de tentar sublimar seus medos.

Mas o que é o terror afinal?

Terror é uma grave perturbação causada por um perigo eminente seja ele real ou imaginário. É o medo do desconhecido, a ignorância do imaterial. Terror é subversão e repressão. Terror é tragédia. Terror é sobre a noite da alma.

Quanto menos você sabe sobre alguma coisa, mais assustadora ela se torna. Por isto, temos medo de perder a consciência, da loucura, das alucinações. Nosso cérebro está programado para o conforto, nossa sanidade está na luz.

No escuro tudo pode acontecer. Um serial-killer pode surgir em sua cozinha durante a madrugada sem lua, lobos podem dilacerar suas vísceras durante um acampamento noturno, demônios podem lançar sua alma nas trevas profundas assim que você fechar os olhos.

Uma boa história de terror mostra o triunfo da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas. O terror não funciona sem esta dicotomia, sem escalar a Árvore do Bem e do Mal, sem morder o fruto do pecado e depois retornar com o cálice sagrado e os alienígenas exterminados.

Isto não significa que seus personagens precisem ser maniqueístas, muito pelo contrário. Eles precisam da mistura que nos torna humanos. Caso contrário, você corre o sério risco de despencar da árvore e bater a cabeça nas pedras dos clichés ou se esfolar nos galhos do humor.

Para escrever um bom livro de terror, no entanto, é preciso saber que vale a pena encarar o escuro. É uma maneira de lutar pela luz mesmo preso em um túnel claustrofóbico, repleto de ratazanas carnívoras, que vai desabar e te soterrar em poucos minutos. Ao sair, você será outra pessoa. A superação das tragédias nos transforma.

Você precisa falar com o cérebro, com o coração e com o estômago do leitor ao mesmo tempo. Se você deseja imobilizá-lo diante do livro, precisa fazer com que sua mente se inunde de perguntas, que a dor comprima seus ventrículos, que sua barriga revire e o faça querer vomitar. É necessário atirá-lo em uma espiral de apreensão, repulsa e medo. Isto é terror!

Um desfile de Medos

Nós costumamos falar do medo da morte, do medo de aranhas, do medo disto e daquilo. Mas o que é o medo afinal? O medo é a antecipação do mal que está por vir. Um excelente livro de terror faz exatamente isto, antecipa o tempo todo o mal que está por vir.

Toda a jornada rumo ao mal se torna mais ainda sufocante com a inclusão do segundo ingrediente do terror, a tragédia. Tragédia é tudo aquilo que causa morte, perda ou sofrimento. Assim, a fórmula para uma boa história de terror é simples: “crie antecipações repletas de tragédias de todos os tamanhos até o confronto final com o grande mal”. Por mais que seja tentado, nunca entregue o que o leitor deseja saber até o final da história, pois neste caso, trágico será não saber esperar.

Para gerar suspense, o resultado desta antecipação, você precisa dosar o quanto o leitor deve saber no decorrer da trama. O que ele não sabe o intriga e faz seu cérebro girar para descobrir o que vai acontecer. Salpicar sua história com questões menores ao redor da pergunta maior – “que porra é essa?” – faz com que ele foque na satisfação das suas dúvidas e o manterá engajado até o grand finale. Então, repita e guarde bem isto: suspense depende do quanto o leitor sabe e do quanto você antecipa sobre o mal que ronda seus personagens.

O bom terror necessita de uma excelente trama. Estão aí os filmes B do gênero para comprovar a falsa crença de que a trama é algo secundário. Escreva um livro sem um enredo convincente e ele se transformará rapidamente em um livro B. Terror não significa um bando de vampiros esfomeados ou um exército de zumbis despedaçados batendo cabeça em busca de pescoços sadios. Também não precisa de tripas expostas, cabeças decepadas nem de sangue jorrando pelas páginas. Isto está longe de ser terror.

Thomas Harris ensina…

Para ser de primeira, como toda história, requer uma trama forte como a de “O Silêncio dos Inocentes”, de grandes personagens, como Hannibal Lecter, de uma escrita convincente, como a de Thomas Harris, e de um enredo lógico e sensato, como a que conduz Clarice Sterling por entre assassinatos de gordinhas incautas até a captura de Buffalo Bill.

O terror é gelado. Causa um frio úmido que sobe pelos calcanhares, congela a espinha, seca a garganta e paralisa o cerebelo, a área do cérebro responsável pelos nossos instintos mais primários. Isto sim é capaz de fazer nossas mãos grudarem em um livro.

Tabus são a chave do terror

Outro elemento que você também deve considerar em sua história é o sexo, “la petite mort”. O termo francês usado para descrever o estado de quase inconsciência que algumas pessoas experimentam após o orgasmo. Sexo e morte são parentes bem próximos, ambos são tabus. Útero e tumba estão mais ligados do que você imagina, por isto, o sexo é capaz de tornar algumas tramas bem aterrorizantes.

Se você gosta mesmo do gênero, deve conhecer bem Freddie Krueger. Trago ele aqui para lembrá-lo de outro componente forte do terror, os sonhos. Segundo a tradição judaica, o sonho corresponde a 1/60 avos da morte. Temos medo do que não podemos explicar e o sonho faz parte deste rol, especialmente quando se desbotam em pesadelos.

O homem tem medo da noite, do frio, do sexo, dos sonhos, da morte. Apesar de ser um tema universal, escrever terror é algo muito pessoal e precisa impactar o próprio autor antes de qualquer leitor. O terror necessita de verdade, de honestidade, caso contrário descamba para o “terrir”.

Cuidado para não causar risos

Sim, o terror é irmão gêmeo da comédia. Você, com certeza, já ouviu a expressão “seria cômico se não fosse trágico” ou vice-versa. Ambos são extremamente subjetivos. Uma coisa engraçada para uma pessoa pode não ser para outra. Funciona da mesma forma quando o assunto é o medo. Terror e comédia são lados de uma mesma moeda, como vida e morte, calor e frio. A diferença é que o objetivo de um é gerar satisfação, fazer rir, gargalhar, e o do outro é gerar ansiedade, fazer chorar, gritar de pavor. Você não pode explicar uma piada como não pode explicar um susto. É aquilo e pronto!

Traga seus medos à tona, coloque-os sobre a mesa, olhe para eles como quem olha para um quadro pendurado na parede da mansão mal-assombrada, sinta muito medo e você escreverá um bom livro de terror. Ultrapasse a tênue linha que o separa da comédia e tudo estará perdido.

Porém, não questione se seu medo é ridículo. Esteja certo de que muitas pessoas têm o mesmo medo. Não escreva para quem acha seu medo insignificante. Tenha em mente que muitos também não o acharão. Transforme um simples medo de baratas em algo que perturbe o cérebro, o coração e o estômago e, por mais trivial que ele seja, sua história será capaz de causar o pânico que você almeja.

Como bem disse George R.R Martin, “um escritor aprende algo em cada história que escreve e, quando você tenta coisas diferentes, aprende lições diferentes”. Escreva um livro sombrio que encare com verdade os tabus da alma e veja seu livro se transformar em um Best-Seller do gênero.

E como você escreve um bom livro de Terror?

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O texto acima faz parte do livro.

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“O conteúdo de Eldes Saullo foi decisivo para eu publicar meu primeiro livro!”
Celeste Neves, autora de “Que Saci é Este? Uma Aventura Brasileira.

“Ser escritor é um trabalho árduo, mas com as dicas de Eldes Saullo o caminho pode ser mais fácil”
Bianca Sousa, autor de Eterna: O Som do Amor e O Canto do Cisne