O Banquete Criativo ou O Escritor Em Busca Da Originalidade

As pessoas tendem a pensar que criatividade é algo instantâneo, uma espécie de pacote de Miojo que você coloca para ferver e, em alguns minutos, se transforma em uma refeição.

Alguns escritores talvez pensem desta forma, o que explica a má qualidade de muitos livros. Existe uma solução: desligar o pensamento automático.

Se você olhar ao redor, verá diversas pessoas que são naturalmente boas em escrever, desenhar, dançar, pintar, tocar um instrumento.

Também deve conhecer outras que sempre trazem soluções inovadoras para muitos problemas que são considerados sem solução.

Existem muitos gênios criativos capazes de conceber uma história fantástica no mesmo tempo em que eu frito um ovo, mas a criatividade está mais para a organização de um banquete do que para fast food.

Se você pensa que não é uma pessoa criativa e se acostumou com aquela pulga que diz “Eu não sou criativo”, você está prestes a ter uma surpresa.

Primeiro, a criatividade requer, no mínimo, dois ingredientes: visão e esforço.

Você precisa ter uma ideia geral da organização dos pratos e talheres, do menu, da decoração e de como o banquete será servido e trabalhar para que cada tarefa seja realizada com excelência até que a mesa esteja servida e os convidados satisfeitos.

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O pensamento automático

Uma das causas das pessoas não se acharem criativas o suficiente é o fato de o cérebro humano gostar de saber para onde está indo e a criatividade requer desvios de rota.

Ninguém que repete os mesmos hábitos é capaz de enxergar o novo com facilidade e o ser humano médio adora uma rotina.  Ultrapassar a linha que separa o conhecido do desconhecido é um dos pilares do homo criativus. 

As pessoas colocam seus cérebros no piloto automático e seguem os mesmos trajetos, comem a mesma comida, se relacionam com o mesmo grupo de pessoas, fazem as mesmas atividades exatamente do mesmo jeito com que decoraram a tabuada no primário. Isto é chamado de zona de conforto.

Todo homem nasce criativo, ou seja, com o potencial de criar. No entanto, muitos hesitam, têm um medo embutido desde os primeiros anos de vida.

Sim, a falta de criatividade tem raízes no modelo educacional ultrapassado a que somos submetidos, no qual a obrigação de estudar é mais importante do que a liberdade de aprender.

A esterilidade do aprendizado de uma sala de aula fechada, separada do mundo e extremamente disciplinadora acaba enterrando fundo qualquer arroubo de experimentação. A “necessidade” de estudar para arrumar um emprego e ser bem sucedido destrói o ímpeto para empreender e descobrir.

Na maioria das vezes, os lampejos de genialidade são confundidos com indisciplina e terminam em castigos com a cara contra a parede ou com advertências e suspensões.

Se cruzamos a linha do desconhecido, como conversar com um estranho ou comer uma comida que nunca experimentamos, o coração tende a disparar e os soldados colocam sua mente em um estado de sítio que bloqueia todas as rotas.

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O pensamento movediço

O que é possível fazer, então, para direcionar sua mente para o novo mesmo quando ela foi condicionada a manter-se dentro dos velhos padrões?

Como é possível cruzar a linha do desconhecido em busca da originalidade, sem medo de se perder ou ir longe demais?

O grande problema de enfrentar o desconhecido é o pânico que isto costuma causar.

Uma boa ferramenta para aliviar este sentimento é a contemplação. Não aquela ensinada na meditação transcendental que te tira do mundo e o leva para planos superiores, mas a contemplação criativa.

Ela te ensina a entrar no território do novo, cuidando para que os soldados da Guarda do Medo mantenham se afastados e você possa explorar este novo mundo com calma.

Por causa dos bloqueios, muitos artistas se envolvem com drogas ou álcool, pois são meios químicos de enganar os guardas. O escritor alcóolatra é um cliché. O problema é que estas soluções preguiçosas destroem o templo da criatividade: seu corpo.

Existe solução melhor.

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O pensamento contemplativo

A contemplação criativa é capaz de criar espaços mentais, emocionais e até mesmo espirituais que geram as ideias.

Não há nada de metafísico nisto, é uma questão de lógica.

Nosso banco de dados está sobrecarregado e não permite interação entre muitas destas informações. Especialmente nos dias atuais onde somos bombardeados a cada milissegundo com informação.

A solução é contemplar, estar presente e deixar de lado os condicionamentos do passado e os medos do futuro.

Reduza a quantidade de lixo que flutua sobre a camada superficial da sua mente e permita que o essencial seja encontrado.

Se você tem pensado sobre escrever um livro durante meses ou anos, sua mente já está preparada para encontrar ideias. Desta forma, ao entrar em um estado de contemplação criativa, as chances de você ter uma visão sobre os caminhos da sua história são grandes.

Mas não basta fechar os olhos e prestar atenção na respiração.  Você precisa observar o incomum e focar nos detalhes.

A mente humana adora simplificar o processo de tomada de decisões e, para tanto, armazena hábitos comportamentais e até de formas de pensar.

Você pode perceber isto ao aprender a andar de bicicleta ou a dirigir, por exemplo. Depois de um tempo, a sequência de ações que precisam ser feitas é carregada automaticamente sem que você precise pensar no que fará a seguir. Você não pensa que tem que engatar a segunda, faz isto da mesma maneira com que um robô faria.

Isto é necessário, pois economiza tempo e massa cinzenta. Por outro lado, atrofia os neurônios responsáveis por questionar, explorar e descobrir o novo. Você se acostuma e passa a desfocar e os detalhes passam despercebidos.

A contemplação criativa ajuda você a abrir as portas de acesso ao seu potencial criativo, pois lhe dá mais foco e poder de observar os detalhes. Às vezes, as mais grandiosas ideias nascem das particulas mais ínfimas.

Desta forma, permita-se, através da prática da contemplação, a olhar o mundo de novo e a explorar o incomum.

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O pensamento livre

Você também precisa calar a boca daquele juiz interno que insiste em julgar o que é Bem e o que é Mal, o que é certo e o que é errado.

E criativos costumam ter juízes bem exigentes, especialistas em bater o martelo e dizer que não é possível porque você não é bom o suficiente, não leu o suficiente, não tem confiança ou capacidade para colocar aquela ideia em prática.

O resultado é a paralisia. A pessoa retorna à prisão dos pensamentos, onde fica dando voltas na cela e assistindo o mundo lá fora se realizar.

A contemplação, a postura meditativa diante dos eventos, dos fatos e de suas sentenças internas, é a melhor forma de silenciar este juiz.

Mas é preciso prática. Da mesma forma que você aprende a dirigir, a prática também fará com que você comece a criar mais pensamentos positivos e desenvolva a habilidade do pensamento criativo.

Imagine, então, que você dirige seus pensamentos e engata quantas marchas quiser em direção à criatividade.

O passo a passo da criatividade

Um bom exercício para libertar os pensamentos é o que segue:

  1. Repita diariamente: “a originalidade e o poder criativo fluem através de mim”. Isto pode ser feito de olhos fechados e com a respiração sob controle de duas a três vezes ao dia.
  2. Faça algo diferente do que costuma fazer. Pode ser um novo trajeto até o trabalho, ir a um restaurante de comidas exóticas ou puxar conversa com um desconhecido.
  3. Mantenha sua mente o mais presente possível, evitando que qualquer julgamento ou preconceito tente bater o martelo. Evite pensar no passado ou no futuro.
  4. Foque nos menores detalhes.
  5. Anote! É importante ter ao lado um papel e uma caneta ou um daqueles aplicativos para tomar notas logo em seguida. A memória não é uma senhora muito confiável.

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Modelos mentais

Usar um modelo mental para dar à luz a criatividade também é uma excelente técnica.

Você pode pensar que é um arqueólogo e sua história está enterrada sob diversas camadas de pensamentos pedregosos.  Ou pode se imaginar escalando uma cordilheira, onde cada platô seja um ponto de apoio até alcançar o topo.

Pode se visualizar como alguém que entra em um túnel e agora busca a luz para sair do outro lado ou como o capitão de um veleiro que navega em direção ao próximo continente.

Como você já pôde perceber no começo deste artigo, eu gosto de usar a relação com o estômago em meus modelos mentais:

Imagine que você é o organizador de uma festa e que os convidados, os leitores do seu livro, estão se deliciando com o banquete.

Visualize o que você precisa criar e fazer antes para que este momento de delícias seja alcançado.

Crie e faça!

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