O Fascínio de Despertar a Atenção do Leitor – Entrevista com C.H.Parise

C.H.Parise sempre foi, desde menino, um observador da Vida. Ele define a Vida como a maior e mais importante viagem que todos nós, humanos, fazemos.

Filho de pai bancário, ele passou a infância morando em diversas cidades, enquanto seu pai fazia carreira no Banco do Brasil. Em sua trajetória continuou sendo “nômade”e morou em diversos lugares. Esta história ele conta em seu livro, Memórias de Ninguém, a autobiografia de um desconhecido, segundo suas próprias palavras.

E é sobre escrever autobiografias, contos e romances esta entrevista que fiz com ele para o blog…

Eldes Saullo: Por que você escreve?

C.H.Parise: Essa questão é semelhante a perguntar a um garoto por que ele joga futebol. Provavelmente ele responderá que joga porque é gostoso, quer marcar gols e ser um craque quando crescer. Idem a um compositor popular, cuja resposta provável será que não sabe muito bem, de vez em quando a Musa chega e simplesmente acontece. Escrevo porque o ato de escrever é surpreendente. Quando início uma estória tenho uma ideia geral do que acontecerá. Faço então um pequeno esquema ou estrutura sobre a qual início a narrativa.
No desenrolar da escrita, novas ideias começam a surgir, sabe-se lá de onde, e não faço muito esforço para manter o esqueleto original. Deixo rolar, cuidando apenas para que não fique inverossímil, ou que não haja continuidade. Enfim, escrevo porque creio que de alguma forma colaboro para que meus leitores sintam-se melhor lendo meus escritos.

Eldes Saullo: Qual foi a inspiração para escrever “Memórias de Ninguém”?

C.H.Parise:  Usualmente, pessoas famosas, escritores, cantores, artistas em geral, deixam para escrever suas memórias quando estão no final de suas carreiras, após terem produzido quase tudo que pretendiam. Não têm pressa para escrever, pois sabem que em função de sua fama,  e claro, por conta da obra que produziram, serão assediados por jornalistas ou escritores especializados na escrita de biografias. No meu caso específico, como não sou famoso e completei 65 anos, achei prudente iniciar pela publicação de minha autobiografia, ou pelo menos parte dela, cobrindo o período desde meu nascimento até minha juventude. Em breve publicarei um romance e um manual para escrever contos para ajudar os interessados a aprender os macetes que uso.

Eldes Saullo: Existe algo que você acha mais particularmente desafiador como escritor?

C.H.Parise:  Sim. Acabo de voltar de uma viagem que fiz ao Sul, em companhia de meu filho. Nessa viagem pernoitamos em Cruz Alta, terra onde nasceu o grande escritor Érico Veríssimo, cujo museu, que funciona no Casarão que pertenceu a sua família, foi restaurado pelo município. Na visita fomos recebidos por Emília, uma senhora simpática, que nos contou pormenores da vida dele, e do processo que ele usava para escrever. O ponto alto da visita ocorreu quando apareceu um rapaz vestido de bombachas, chapéu preto, falando com um sotaque estranho, ora praguejando contra os Amarais, ora falando frases esparsas como se conversasse com seres invisíveis a nossos olhos comuns. Emília percebendo nosso desconforto apressou-se a apresentá-lo como o “Capitão Rodrigues”. Quando ele se afastou junto com meu filho, perguntei a ela se era um ator contratado pelo museu. Ela sorriu e respondeu que não. Ele lera o romance de Veríssimo na infância e nunca mais conseguira sair da estória. Nos dias de festa, veste farda de gala e acompanha as solenidades, como se fosse o próprio personagem. O que considero mais desafiador como escritor, é conseguir que o leitor se embrenhe de tal forma na trama, que durante a leitura, viva um pouco as emoções do personagem. É claro que não pretendo que ninguém fique preso na estória, como ocorreu com o “Capitão”. Nem Veríssimo pretendeu que isso acontecesse. Mas é, sem dúvida, fascinante conseguir despertar a atenção do leitor, para que ele, de forma saudável sinta-se envolvido com a estória que você escreveu.

Eldes Saullo: Como é seu processo criativo?

C.H. Parise:  No caso da autobiografia, não houve necessidade de planejar. As recordações foram surgindo naturalmente e apenas descarreguei no Word tudo que me veio à memória. No livro de contos, que ainda vou publicar, reuni contos que já havia escrito, e escrevi outros porque resolvi transformar em um manual para se escrever contos, portanto um livro de não ficção, onde tento passar a meus futuros leitores, dicas de como os contos foram escritos, para que eles aproveitem e possam escrever os seus próprios e vencer o natural bloqueio criativo que é um dos principais obstáculos que afligem os escritores iniciantes. Em “Caminhos do Sul”, romance que ainda estou escrevendo, e por se tratar de obra de maior fôlego, fiz uma escaleta para ter todo o esqueleto do livro, antes de iniciar a narrativa propriamente dita, porque creio que esse processo vai facilitar muito o desenvolvimento da trama.

Eldes Saullo: Como você faz para divulgar e fazer seu livro chegar a cada vez mais leitores?

C.H. Parise: É nesse ponto que estou pecando. Como meu livro é autobiográfico  e não sou famoso, fica quase impossível fazer pessoas se interessarem por ler minha autobiografia. Mesmo meus amigos e parentes, para quem mandei e-mails e contei sobre o livro, me deram os parabéns, desejaram sucesso, mas na verdade  poucos compraram o livro impresso. Ainda assim, a venda dos e-books também não foi muito bem expressiva, justamente por ser algo muito pessoal. O escritor que deseja ser bem vendido, para que as vendas possam ser alavancadas, precisa pesquisar um nicho que possa despertar o interesse do leitor, resolvendo alguma “dor” dele. Devemos ler muito e frequentar cursos de escrita criativa e de marketing literário. Para quem não mora em grandes cidades, onde há maiores chances de fazer esses cursos, a Internet e o Youtube são um ótimo celeiro para conseguir material sobre o assunto. E claro, não desistir diante das dificuldades com os livros iniciais. O próprio Érico Veríssimo só teve um impulso significativo em sua carreira depois de escrever “Olhai os Lírios do Campo”, conforme fiquei sabendo na visita ao museu. Outro caminho é comprar obras de escritores especializados, como você Eldes, que “escreve para quem escreve”, sem dúvida um grande impulsionador de escritores iniciantes e mesmo de muitos que já publicaram as primeiras obras.

“Memórias de Ninguém” está disponível em e-book e impresso sob demanda na Amazon.

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