Uma boa história requer grandes diálogos e escrevê-los requer destreza.
O principal objetivo é que soem autênticos e originais e que façam o leitor mergulhar no livro.
Saber o momento exato de mudar o tom, de usar um gesto em vez de uma fala ou de inserir silêncios tão efetivos quanto uma explosão exigem paciência e prática.
O post de hoje é sobre como tornar as conversas entre seus personagens mais interessantes…
Um bom diálogo reflete o que está acontecendo ao redor e dentro dos personagens.
E revela suas habilidades como escritor.
Diálogos ruins transmitem o trabalho de um amador que não consegue perceber as nuances da fala.
Bons diálogos iluminam os personagens, fazem a trama avançar e desenvolvem relacionamentos.
Comecemos com as três variáveis do diálogo perfeito…

1. Mova a história, caracterize o personagem, informe o leitor


Sempre que for escrever um diálogo, pense na trama, no personagem e no leitor.
Isto pode ser alcançado levantando três questões antes de colocar a conversa no papel:

  1. O diálogo que você escreveu acrescenta algo à história? Vai mudar o rumo dos acontecimentos? O leitor vai presenciar uma discussão importante para a trama?
  2. O diálogo fortalece a caracterização do personagem? Demonstra as relações entre os personagens, apresenta uma reação diferente ou faz com o leitor os conheça melhor?
  3. Que informação ele passa para ao leitor? Ele revela uma nova informação?

Se a resposta for não, melhor não escrever.
O diálogo eficiente faz o enredo avançar, ajuda a colocar camadas de personalidade nos personagens e passa informações importantes para a compreensão e o engajamento da história.
Obviamente, nem todo diálogo precisa seguir esta tríade.
Se não for possível, pergunte-se, ao menos, se ele é capaz de mover a história.

2. Indiretas funcionam melhor que o óbvio


Responder diretamente a uma pergunta é visto como uma qualidade na vida real.
Porém, poucas pessoas são tão pragmáticas.
Na ficção, a resposta direta não é muito funcional porque não gera tensão.
E uma boa trama é, antes de tudo, recheada de conflitos que geram tensão.
A técnica judaica de responder uma pergunta com outra pergunta é muito eficiente, se utilizada com parcimônia.
Você precisa conhecer a fundo seus personagens para transpor para o papel o que diriam um ao outro se fossem pessoas reais.
Confie neles o suficiente para saber o que falariam nas mais diversas situações.
E deixe fluir.
Evite também a redundância entre fala e sentimento, como no exemplo abaixo:
— “Que ótima notícia!”, exclamou feliz.
A redundância subestima a capacidade do leitor e faz com que ele logo perca o interesse.

3. Entre tarde e saia cedo


Imagine se em cada diálogo do seu livro seus personagens se cumprimentam ou se despedem após uma conversa.
Chato, não?
Mas não é preciso ser saudação ou despedida para que a coisa continue chata.
Qualquer conversa que preceda ou prolongue o cerne do diálogo – aquele que faz a história andar, caracteriza ou informa – pode ser abolido.
Portanto, evite a conversa fiada inicial, parta logo para o que interessa e encerre o diálogo antes que ele retorne à conversa fiada final.

4. Informe na medida


Não há nada mais cansativo do que alguém sem pregas na língua.
Da mesma forma, como escritor, você precisa filtrar sua mente antes de ser verborrágico no papel.
Descarregar uma grande quantidade de informação em um diálogo é terrível.
É preciso informar, mas isto não significa que as informações precisem ser em montes.
Aprenda a dosar esta entrega e passe as informações de acordo com o contexto da ação.
O mesmo serve para fatos e coisas que o leitor já conhece, também conhecido como fotolegenda.
Isto inclui a repetição do nome do personagem ou a informação redundante.
Ficar repetindo informações prejudica o andamento da história, subestima a capacidade do leitor e cansa.

5. Gere tensão


Use o diálogo para gerar tensão.
Uma conversa repleta de argumentos em concordância é extremamente chata.
Uma conversa onde cada um tenta impor seus argumentos é muito mais interessante.
A tensão também pode ser gerada pelo tom.
Uma conversa ríspida, curta e grossa pode demonstrar a raiva que alguém sente.
Mas este sentimento também pode ser passado com ironia ou sarcasmo ou até mesmo com frases mais polidas, se o personagem deseja esconder a raiva, por exemplo.

6. Busque a naturalidade individual


Ninguém fala igual a ninguém.
Cada um tem sua própria maneira de se expressar.
Busque compreender as vozes individuais de cada personagem para evitar que eles pareçam iguais ainda que façam parte do mesmo círculo social ou familiar.
Uma boa técnica é colocar lado a lado as semelhanças e diferenças de cada personagem e definir as características de suas personalidades.
Novamente, lembre-se que gestos, pausas e silêncios também são ingredientes dos diálogos.
Em um romance, você terá cenas em que o mocinho e a mocinha viverão cenas de amor, tórridas ou não.
Isto não significa que estas cenas precisam ser mudas ou repletas de gemidos e sussurros.
O diálogo pode adicionar um colorido ímpar para suas cenas românticas.
Lembre-se que eles são amantes e não robôs.
Você pode usar um diálogo para mostrar o efeito da paixão sobre eles e a transformação porque passam ao longo da história.
Adequação à localização e ao tempo em que se passa a história são imprescindíveis para a caracterização.
A naturalidade também ocorre de acordo com a região, época e contexto histórico em que os personagens se encontram.

7. Cuidado com tecnicismos, sotaques e gírias.


Hoje em dia, seria muito natural alguém gritar “puta que o pariu!” ou outro palavrão qualquer.
Porém, muitas vezes esta não é a melhor saída.
Veja, você pode muito bem fazer seu personagem exclamar algo de baixo calão, caso isto seja compatível com a personalidade que você construiu para ele ao longo da trama.
É uma questão de causar impacto. Mas gírias e palavrões também perdem o impacto se utilizados com muita frequência.
A repetição enfraquece o diálogo e chateia o leitor.
Faça um exercício e procure uma exclamação que possa substituir à altura.
O mesmo serve para tecnicismos, sotaques e línguas inventadas.
Inventar uma língua funciona quando duas espécies de uma cultura diferente conversam entre si para manter um segredo ou quando alguém deseja mostrar que conhece o idioma como prova de amizade ou parentesco.
Anthony Burgess foi mais além. “Laranja Mecânica” é todo narrado em uma mistura de russo, inglês e gírias de trabalhadores ingleses. Para o leitor não se perder, um dicionário de nadsat acompanha o livro.
Outros bons exemplos são o Tengwar, a língua dos elfos criada por Tolkien em “O Senhor dos Anéis”, e a língua Klingon, de “Jornada nas Estrelas”, que acabou se tornando um idioma à parte, estudado e falado pelos mais fanáticos fãs.
Quanto aos tecnicismos, recurso também necessário um livro de ficção científica, certamente você terá que apresentar as variáveis e apetrechos do novo mundo que criou.
O gênero requer termos científicos ou tecnológicos muito especializados, mas é preciso saber dosar a utilização de nomes e palavras estranhas para não entediar ou fazer com que o leitor se perca.

8. Deixe claro quem está falando


É terrível acompanhar um diálogo grande e não saber mais quem diz o quê.
Nada aflige mais do que um diálogo que alterna entre os personagens com pouca ou nenhuma indicação de quem está falando.
Isto se torna ainda pior se o diálogo é entre mais de duas pessoas.
Cuide para que as vozes tenham donos sem incorrer no erro da repetição do “disse ele” e “respondeu ela”.
A eloquência verbal é uma característica dos bons escritores.
Você pode e deve usar outros verbos.
Eis uma lista de bons exemplos:

9. Fuja dos clichés


O diálogo é a parte onde o escritor corre mais risco de cair em clichês.
Faça um favor a você mesmo e nunca coloque as falas abaixo em seu livro:
– “Não vou te abandonar.”
– “Como ele está?” – “Ele vai sobreviver.”
– “Isto não vai acabar assim…”
– “Foi só um arranhão!”
– “Estou com um mau pressentimento!”
– “Não olhe para baixo!”
– “Isto não é o que parece!”
– “Você está pensando no que eu estou pensando?”
– “Diga à minha mulher que eu a amo.”
– “Então… nos encontramos de novo, né?”
– “Siga aquele carro!”
– “Amor, é você?”
– “Eu sou/nós somos o próximo estágio da evolução humana.”
– “Emoção é uma prova de fraqueza.”
– “_____ é meu sobrenome.”
– “Este mundo é muito pequeno para nós dois.”
– “Isto não acabou…”
A lista é extensa.
Porém, não se preocupe muito com isto durante o primeiro draft do seu livro.
Crie os diálogos naturalmente.
Na fase seguinte, você vai poder consertar muitos dos erros e tornar os diálogos mais atraentes.
Concentre-se sempre na essência que é “mover a história”.
Após terminá-los, leia-os em voz alta.
Você consegue ouvir alguém dizendo aquilo em uma conversa normal?
Se não, reescreva até que soe natural e dentro do contexto.
Lembre-se que uma grande fala pode transcender sua história.
Uma resposta espetacular ou uma pergunta genial podem virar quadros na parede ou se tornar símbolos culturais para gerações.
Isto também pode acontecer com um diálogo clichê, mas a probabilidade é quase nula e, caso aconteça, será pelas razões opostas.
Tem mais dicas sobre diálogos?
Deixe nos comentários.
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