Como Criar Cenários Fantásticos na Ficção Científica e Fantasia

Nietzsche dizia que é dos sentidos que procede toda a autenticidade, toda a boa consciência, toda a evidência da verdade.

A razão pela qual muitos leitores escolhem ficção científica é porque eles querem deixar a realidade cotidiana para trás e serem transportados para um mundo completamente diferente.

Na ficção científica e na fantasia, o cenário não é apenas um pano de fundo para a ação.

É fundamental para a composição do todo e para a identificação do gênero.

Descrever um cenário talvez seja a tarefa mais dura para um escritor.

É mais difícil ainda no caso de um livro de ficção científica, que requer tanto ou mais personalidade e história pregressa do que um personagem.

Afinal, o universo paralelo é a base da especulação.

Uma das principais tarefas do autor do gênero é suspender a descrença do leitor.

Além de transportar o leitor para o “novo mundo”, é preciso manter a coisa toda crível.

Para isto, conheça a fundo as regras e conceitos que fazem seu mundo funcionar, pesquise e planeje muito bem.

Isto evita que você quebre as regras de forma acidental.

Um local exótico, muito comum no gênero, merece uma descrição detalhada.

Em algumas partes das histórias, o lugar é quase tão importante quanto os personagens que o habitam e, portanto, merecedor de um nível de descrição à altura do contexto.

Noutras, servem apenas como suporte para a ação e não precisam de muitos detalhes.

Sendo simples e direto, se a descrição acrescenta algo relevante para o desenrolar da história, inclua.

Do contrário, seja breve e apenas relembre alguns detalhes para situar o leitor.

O contexto é relevante quando:

• Faz a história andar.
• Transmite informações que fazem os personagens se moverem.
Passa o humor ou o tom que você deseja para a cena.

Na ficção científica e na fantasia, o cenário é tão importante quanto um personagem.

Um planeta de areia, uma estação espacial mortal, uma megápole pós-apocalíptica dominada por máquinas, um submarino atômico com ideias próprias ou uma floresta enfeitiçada são exemplos conhecidos.

Ao tratar o ambiente como um personagem, com intenções, motivações e algum tipo de sensibilidade, você o traz à tona com força e capacidade de fazer seu leitor imergir sem descrença.

Além disto, pergunte-se: Qual é a importância do local na transformação do herói?

O segredo para descrever cenários interessantes é fazê-los interagir com os personagens ou mostrar como estes se sentem diante daquele local.

Torne o espaço ativo, faça o tão necessário para a narrativa quanto qualquer outro elemento e use os sentidos para tornar a cena real. Faça o leitor sentir-se no ambiente.

Isto é muito mais fácil para quem escreve romance ou histórias que se passam no mundo como o conhecemos.

No universo da ficção científica, não adianta descrever o encontro entre dois alienígenas no saguão do Hotel Netuno Alfa que fica em Arvej, capital do Planeta Stelia, se antes você não descreveu tal mundo, suas cidades e construções.

Você precisa construir o espaço e o tempo da civilização do zero para que o leitor não coloque a cabeça para fora do Mar da Crença.

E mergulhá-lo nos valores políticos, culturais e religiosos do ambiente em questão antes de colocar seus personagens em ações triviais em uma lua de Júpiter.

Outra preocupação que merece destaque é o meta-cenário, aquela sensação que vai além do lugar.

Até que ponto suas próprias percepções e perspectivas filosóficas e morais poderão influenciar a visão do leitor na descrição do cenário?

No momento da descrição, tudo começa com a escolha das palavras.

Evoque um estado de espírito de assombro com arranha-céus capazes de ludibriar os olhos mais treinados, naves que deslizam sobre estrondos, salas que transpiram o cheiro asséptico da alta tecnologia e tele transportes ou máquinas do tempo que reviram até os estômagos mais treinados.

A melhor forma de fazer isto é:

• Utilize palavras que transmitam sensações de espaço, tempo e energia.
Use palavras hipnóticas, que apelam para os sentidos visuais, auditivos e sinestésicos do leitor.
• Use verbos que remetam a estímulos sensoriais.

Pinte um quadro na mente do leitor.

Abaixo, segue o exemplo de uma descrição que utiliza palavras sensoriais (em negrito) para criar imagens na cabeça:

“O peso do aço luminoso, que revestia a nave em repouso, contrastava com a eletricidade gélida da paisagem. O horizonte estremecia em clarões carregados de silêncios. No céu, as imponentes luas de Eolys pareciam lutar no ritmo das nuvens dissonantes”.

Outra boa descrição de cenário é quando ajuda a descrever o humor do seu personagem.

Isto não significa colocá-lo em um lugar quente e agradável, quando está feliz, ou em um ambiente chuvoso e cercado de névoas, quando está triste.

Tudo depende do tom e do contexto.

Um dia ensolarado pode aquecer seu coração ou zombar de sua dor.

Uma noite gélida pode congelar sua espinha ou renovar sua coragem.

Considere a relevância do cenário para a cena e para a trama.

Antes de pensar no lugar, defina qual é o objetivo da cena.

A criatividade na escolha da ambientação é uma peça importante para valorizar o enredo.

Universos fantásticos merecem descrições a altura.

Deixe seu personagem “atuar” nos lugares, fazer as ações necessárias, como escapar do vilão, por exemplo.

Imagine que ele esteja em um cruzador espacial e o vilão seja um alienígena sanguessuga.

O que pode tornar a cena mais dramática? Uma tempestade espacial? Um vazamento que pode deixá-lo à deriva para sempre?

Descreva o cenário com palavras que reforcem a ação de fuga e crie imagens na mente do leitor através de sons, cheiros e sensações físicas.

Adicionar complexidade também pode dar mais significado à cena.

Objetos, móveis, iluminação, temperatura, arquitetura, geografia e figurantes podem torná-la mais real e convincente.

Tome cuidado, apenas, para não interromper o fluxo da ação ou o clímax com detalhes insignificantes.

Faça o cenário trabalhar para a trama.

Passe ao leitor a sensação do local, case com a ação e siga em frente.

Outra questão é quando inserir uma descrição cenográfica.

Inclua na primeira cena do livro somente se o local for de extrema importância para a trama.

Descreva quando for fundamental para o objetivo da cena e da história.

É sempre importante situar o leitor.

Se não fizer isso, eles podem se perder.

Por fim, siga o conselho de Elmore Leonard:

“Deixe de fora a parte que os leitores tendem a ignorar”.

Descrições maçantes de lugares e paisagens fazem parte desta lista, mesmo que sejam visões fantásticas.

Quanto mais tempo você se prender em coisas irrelevantes, mais os leitores irão se cansar.

Se passar do ponto, eles podem se cansar de vez e deixar o livro inteiro de lado.

Defina também o período de tempo e a época em que se passa sua história.

Ficção científica e fantasia requerem um passado remoto, um futuro distante ou uma versão diferente do presente.

Faça pesquisas mais profundas para situar a trama no tempo e no espaço.

Estude bem lugares e épocas para não cometer gafes.

Ao escrever ficção científica, você pode criar personagens convincentes e um enredo poderoso, mas a menos que transporte seu leitor para um mundo diferente e faça-o acreditar piamente em sua existência e experimentá-lo como se fosse um lugar real, dificilmente conseguirá manter seu interesse.

Caso queira se aprofundar na escrita do gênero, o livro Escrendo Ficção Científica e Fantasia – Como Contar Histórias de Outros Mundos pode ajudá-lo.

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