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Anatomia de um Best-Seller: Parte IV – Ambientação

Nos três primeiros artigos da série “Anatomia de um BestSeller”, abordamos Temas Universais, Enredo e Personagens capazes de se conectar com o leitor, como ingredientes fundamentais dos livros com poder mercadológico.

No capítulo de hoje, vamos esquadrinhar o quarto item da lista de dez partes capazes de transformar simples histórias em grandes sucessos.

O que a Terra Média, o mundo de “O Senhor dos Anéis”, tem a ver com os deslumbrantes anos 1920 de “O Grande Gatsby”?

O que Panem, a capital futurista com seus distritos da saga “Jogos Vorazes”, tem em comum com a cidade de Maycomb, no sul dos Estados Unidos, cenário de “O Sol é Para Todos”?

A terra de Frodo Bolseiro é um mundo fantástico repleto de magia e mitologia, enquanto o cenário onde se passa o drama de Jay Gatsby é um retrato realista de uma era e lugar histórico específicos.

No entanto, ambos refletem os temas centrais das respectivas histórias: a luta entre o bem e o mal, retratada por J.R.R. Tolkien, e a descida do sonho a desilusão americanos, por F. Scott Fitzgerald.

Já a nação de Panem, com sua capital opulenta e 13 distritos empobrecidos, é uma crítica ao autoritarismo e à desigualdade social.

Maycomb, por sua vez, embora situada em um lugar e tempo (a grande depressão) muito diferentes, também serve como um espelho para as desigualdades e preconceitos da sociedade racista em que está inserida.

Panem e Maycomb são indispensáveis para as histórias que trazem, fornecendo o contexto necessário para suas críticas sociais incisivas.

Desta forma, se você pretende criar uma história capaz de ecoar na eternidade, precisa não apenas transportar seu leitor para o lugar onde ela acontece, mas conectar a ambientação ao tema, enredo e personagens.

Nos últimos 12 anos, como autor e como editor na Casa do Escritor, tenho estudado a fundo as características que fazem com que livros caiam no gosto popular.

Nesta série, trago para você 10 ingredientes que tornam livros inesquecíveis com exemplos e dicas práticas para você aprimorar sua escrita.

O quarto grande aprendizado que quero compartilhar com você é…

“Ambientações ricas transformam narrativas comuns em fenômenos literários.”

Uma história pode ter uma trama excepcional, enredo bem estruturado e personagens cativantes, mas sem uma ambientação rica e bem desenvolvida, alguma coisa vai faltar.

Ambientação não se refere apenas ao lugar onde a ação acontece, mas ela também é um personagem em si, com personalidade própria, conflitos e evolução.

Quando bem construída, tem o poder de elevar uma narrativa comum a um fenômeno literário, capturando a imaginação do leitor de tal forma que ele se sente transportado para outro lugar.

O autor que domina a técnica da ambientação consegue envolver o leitor em uma teia de detalhes sensoriais, históricos e culturais que fazem o universo e época descritos ganharem vida.

Além disso, sabe que cada cenário pode fornecer um pano de fundo para os conflitos emocionais dos personagens, refletir temas mais amplos ou até mesmo servir como um motor para a trama.

O mundo distópico de “1984”, de George Orwell, por exemplo, se torna uma lente através da qual examinamos questões de liberdade e autoritarismo.

Porém, criar uma ambientação rica não é uma tarefa simples.

Exige pesquisa, atenção aos detalhes e um profundo entendimento de como o ambiente interage com os personagens e o enredo.

Mas o esforço vale a pena.

A leitura se torna mais engajante e abre portas para discussões e revisitações futuras, como acontece com a Terra Média, Westeros, Panem, Hogwarts, entre outras.

Isso posto, quero revelar algumas dicas preciosas para a construção de cenários capazes de turbinar sua trama.

1. Capture Corações e Mentes Desde o Início

Na literatura, a primeira impressão frequentemente vem da ambientação.

Tomemos como exemplo a abertura de “1984”:

“Era um dia claro e frio de abril e os relógios marcavam treze horas. Winston Smith, seu queixo abaixado de encontro ao peito numa tentativa de escapar do vento infame, passou rápido pelas portas de vidro das Mansões da Vitória, ainda que não rápido o suficiente para evitar que um montinho de poeira fina entrasse junto com ele.

O hall de entrada tinha cheiro de repolho cozido e tapetes velhos de retalhos. Um cartaz grande demais para ser exposto internamente estava fixado em uma das extremidades. Mostrava simplesmente um rosto enorme, mais de um metro de largura: o rosto de um homem de cerca de 45 anos, com um bigode preto farto e traços acidentalmente bonitos. Winston alcançou as escadas. Não adiantava chamar o elevador. Raramente estava funcionando, mesmo em momentos melhores, e atualmente a energia elétrica ficava desligada durante o dia. Isso era parte de um esforço econômico em preparação para a Semana do Ódio”.

Repare que o cenário, mais do que um mero pano de fundo, já se prenuncia como um personagem, carregado de opressão e vigilância.

Isso captura o leitor imediatamente e estabelece o tom para o resto do livro.

Frank Herbert, em ‘Duna”, usa uma profusão de detalhes sensoriais para trazer o mundo árido de Arrakis à vida.

Logo na primeira página do livro, ele descreve o castelo da família Atreides assim:

“Era uma noite quente no Castelo Caladan, e as pedras antigas que serviam de lar à família Atreides, havia vinte e seis gerações, exalavam aquela sensação de suor resfriado, que costumavam adquirir pouco antes do tempo virar.”

Crie cenas irresistíveis, diálogos inesquecíveis e cenários incríveis.

Uma forma eficaz de cativar o leitor desde o início é mostrar em vez de contar.

Desta forma, em vez de dizer que um personagem está em um ambiente opressivo, mostre-o com detalhes sensoriais, como o hall de entrada com cheiro de repolho cozido ou pedras que exalam a sensação de suor resfriado.

Em “O Nome da Rosa”, em nenhum momento Umberto Eco descreve o mosteiro onde a história se passa como antigo e sombrio.

Mas podemos sentir isso através da maneira como ele discorre sobre o frio dos corredores de pedra, as sombras projetadas pelas velas e os ecos de cantos gregorianos.

O cartaz do “Grande Irmão” na abertura de “1984” é uma imagem poderosa que imediatamente comunica a onipresença do estado autoritário.

Isso não apenas dá ao leitor algo visual e emocionalmente impactante para se apegar, mas também estabelece uma linha temática que pode ser desenvolvida ao longo da narrativa.

A Terra Média tem o lado florido e bucólico do Condado representando o Bem, e os vulcões incandescentes e a aridez de Mordor como retrato do Mal.

Uma técnica é começar com uma ação ou evento intrinsecamente ligado ao ambiente.

Algo que não poderia acontecer em nenhum outro lugar, tornando o cenário imediatamente relevante para a trama.

Em “Duna”, por exemplo, o deserto e sua perigosa fauna são apresentados através de um ataque de vermes da areia, estabelecendo desde cedo as regras de um mundo hostil.

Assim, faça a ambientação servir à trama e aos personagens e não ser apenas uma paisagem de fundo bonita.

Cada elemento do cenário deve ter um propósito e contribuir para a evolução da história.

Por isso, é muito importante planejar.

Após pensar em um tema universal para sua história, na estrutura do enredo e nos personagens e seus conflitos externos e internos, pense em como a ambientação pode potencializar a trama.

Faça esboços da sua ambientação, anote detalhes importantes e veja como eles se encaixam na sua história.

Faça pesquisas, pois elas são cruciais.

Se você está escrevendo sobre um lugar ou época reais e específicos, é óbvio que os detalhes precisam ser autênticos.

Isso vai requerer mais esforço, mas os leitores notarão e apreciarão seu empenho.

A ambientação bem pensada captura corações desde o início e é também capaz de manter o leitor engajado até a última página.

Leia:  Roteiro para a Autopublicação do Seu Primeiro Romance

Eu revelo como criar cenários incríveis em “Cenas & Cenários Fabulosos – A Arte de Movimentar Personagens na Ficção”, no qual te ajudo na sucessão de sequências e locações para uma trama de alto impacto.

2. Dê Vida aos Detalhes

Você quer criar uma história memorável e realista, ainda que em um mundo totalmente fictício?

Preste atenção aos detalhes e torne-os mais vívidos.

Os detalhes de um cenário não são apenas ornamentos.

São os tijolos e argamassa que constroem um mundo vivo e respirável.

Pense no farfalhar das folhas de papel em uma sala cheia de manuscritos em “O Nome da Rosa”, ou na forma como a luz do entardecer filtra através das janelas empoeiradas em uma sala de estar em “O Sol é Para Todos”.

Tais detalhes não apenas criam uma imagem vívida, mas também evocam um estado de espírito, um tom, e até mesmo uma sensação física.

Agem como pistas sensoriais que engajam o leitor em um nível mais profundo, permitindo-lhes sentir o cheiro do pó, ouvir o ranger do assoalho de madeira e sentir a textura áspera de um tapete velho de retalhos ou de um livro medieval.

Não é apenas onde a história acontece, mas como ela faz o leitor sentir ao acontecer que faz toda a diferença.

Não se limite a descrições visuais.

Use o tato, o olfato, o paladar, a audição.

Em “O Perfume” de Patrick Süskind, por exemplo, os cheiros são tão vividamente descritos que quase podemos senti-los, tornando a experiência de leitura incrivelmente envolvente.

E evite descrições vagas ou genéricas, procure ser específico.

Se um personagem está comendo, descreva o sabor, a textura e o aroma da comida.

Em “Comer, Rezar, Amar”, Elizabeth Gilbert não menciona apenas a deliciosa comida italiana, mas nos leva a uma viagem sensorial através das pizzas de Nápoles e do gelato de Roma.

Apenas tome cuidado, pois os detalhes não devem paralisar a ação, e sim estarem integrados a ela para aprimorá-la.

Um excelente exemplo é o duelo entre Inigo Montoya e o Homem de Preto em “A Princesa Prometida”, de William Goldman.

O cenário é um penhasco, e os detalhes, como a posição do sol no céu e a maneira como as lâminas se cruzam e lançam faíscas, não interrompem a ação.

Em vez disso, aumentam a tensão e a emoção, dando ao leitor uma sensação vívida da destreza e urgência dos espadachins.

As descrições detalhadas das técnicas de esgrima e os movimentos dos personagens são tão precisos que você pode quase ouvir o zumbido das lâminas e sentir o perigo iminente, tornando a cena inesquecível.

Quando terminar de escrever sua história, faça uma leitura específica apenas para checar se o cenário e seus detalhes estão servindo a um propósito.

Se ele não avança a trama ou não revela algo sobre um personagem, talvez seja melhor cortar ou reduzir.

No entanto, tome cuidado para não remover detalhes que, a princípio, podem parecer insignificantes, mas que adicionam profundidade e textura ao seu mundo, como J.R.R. Tolkien fez tão habilmente na Terra Média.

A dica de ouro, como em tudo na vida, é buscar sempre o ponto de equilíbrio.

Excesso de detalhes pode ser tão prejudicial quanto a falta deles.

Além disso, não subestime o poder dos detalhes para resolver problemas de enredo ou de personagem.

Às vezes, um simples objeto pode fornecer a solução para um problema narrativo maior, servindo como um catalisador para a ação ou uma revelação de caráter ou de personalidade.

A posse da faca, por exemplo, torna-se um ponto de disputa entre os personagens de Ralph e Jack, em “O Senhor das Moscas” de William Golding, acelerando a deterioração de suas relações e direcionando para os eventos seguintes para a barbárie.

3. Faça o Cenário Importar

Fazer o cenário importar em uma obra literária é como dar um palco bem elaborado para um ator talentoso.

A trama e os personagens podem ser excepcionais, mas é a ambientação que oferece o contexto e a profundidade necessários para tornar a história verdadeiramente memorável.

Tomemos como exemplo o romance “Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez.

A cidade fictícia de Macondo não é apenas um local isolado, mas mola para a trama sobre isolamentos emocional, físico e metafísico, que percorrem a linhagem da família Buendía ao longo de várias gerações.

O cenário criado por Márquez se torna, inclusive, um reflexo da própria América Latina, apartada do desenvolvimento no mundo.

Em um contexto completamente diferente, “Duna” apresenta o planeta desértico de Arrakis com areias que escondem a especiaria melange, o recurso mais valioso do universo.

Tal cenário está intrinsicamente ligado ao poder político, social ou ecológico, e como ele é exercido e manipulado em diferentes esferas da sociedade e do ambiente.

Em ambos os exemplos, o cenário está inerentemente ligado à trama, aos personagens e ao tema do livro.

Assim, criar conexões temáticas entre o cenário e a trama ajuda a construir Best-Seller.

E você pode e deve ir além, pois a ambientação também ajuda a desenvolver personagens.

Em “O Grande Gatsby”, a divisão entre as áreas de East Egg e West Egg em Long Island é um espelho das divisões sociais entre os personagens, fornecendo percepções sobre suas motivações e conflitos.

Também não tenha medo de brincar com as dimensões do seu cenário para criar tensão ou resolver conflitos.

O Louvre não é apenas um museu em “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, é palco para um assassinato e um quebra-cabeça que os personagens devem resolver.

Quem pensaria que a Monalisa seria capaz de esconder uma pista valiosa para a história do mundo?

Mas não fique preso e não tenha medo de mudar a ambientação ou apresentar contrastes ao longo da história.

Em “As Crônicas de Gelo e Fogo”, George R.R. Martin nos leva de desertos quentes a terras geladas, e cada mudança de cenário traz novos desafios e revela diferentes aspectos dos personagens.

Você já reparou que em alguns filmes, quando a trama se aproxima do clímax, especialmente quando o protagonista descobre algo novo em relação ao conflito central, o cenário muda completamente?

Isso é uma técnica para manter o interesse, que dá um ritmo dinâmico à narrativa.

Ao longo da história, pense em como mudanças de cenários podem contrastar ou dar uma nova dimensão ao tema, caso de “O Senhor dos Anéis”, como já mencionei.

Além de refletir o tema, a Terra Média passa por transformações significativas que refletem os eventos da trama, desde a paz relativa do Condado à devastação imperiosa de Mordor.

Também é importante considerar o impacto do cenário no tom e no ritmo da sua história.

Um ambiente gótico será mais adequado para um romance de terror, enquanto uma cidade pequena e ensolarada pode ser perfeita para uma comédia romântica, tomando obviamente cuidado para não derrapar em clichês.

Espaços confinados podem aumentar a tensão, enquanto planos mais abertos e vastas paisagens podem dar aos personagens e aos leitores um momento para respirar.

4. Torne o Cenário Crível

Para tornar uma narrativa verdadeiramente envolvente, o cenário deve ser tão crível quanto os personagens que o habitam.

Em “Cinquenta Tons de Cinza” de E.L. James, o mundo corporativo de alta classe e os luxuosos apartamentos de Christian Grey são descritos com detalhes que conferem uma sensação palpável de autenticidade.

Isso ajuda a ancorar a história, por mais fantasiosa que possa parecer para alguns, em um ambiente tangível.

O leitor pode facilmente imaginar os espaços em que os personagens se movem, desde escritórios sofisticados até salas de jogos particulares, facilitando comprar a premissa do romance.

Em “O Nome da Rosa”, Eco usa seu conhecimento profundo da época para criar um cenário medieval que não é apenas fisicamente crível, mas também historicamente preciso.

Leia:  Como Criar Cenários Fantásticos na Ficção Científica e Fantasia

Ele se aprofunda nas rotinas diárias dos monges, nos livros que possuem, e até mesmo na teologia e filosofia que discutem.

Um cenário também pode ganhar credibilidade através do uso de arquétipos, símbolos universais que carregam significados em diferentes culturas.

Valinor, o cenário retratado por Tolkien em “O Silmarillion” é fortemente influenciado por arquétipos do paraíso ou da Terra Prometida, familiares em diversas culturas e religiões.

Isso confere ao lugar uma aura de sagrado e eterno, tornando-o instantaneamente crível como um reino de deuses e seres imortais.

No entanto, é crucial manejar esses arquétipos com cuidado para também não derrapar nos estereótipos.

Usar um deserto como cenário apenas para simbolizar “vazio” ou “solidão”, ou uma floresta para simbolizar “perigo” e “mistério”, podem ser vistos como simplificações excessivas, que não fazem justiça à complexidade e à diversidade desses ambientes na realidade.

Além de usar símbolos existentes, você também pode criar os seus próprios.

Em “O Senhor das Moscas”, o objeto trivial de uma concha se torna um poderoso símbolo de ordem e civilização, um contraponto à anarquia que eventualmente toma conta dos personagens.

Um bom símbolo não serve apenas a um tema ou personagem, mas a vários aspectos da narrativa.

Crie cenas irresistíveis, diálogos inesquecíveis e cenários incríveis.

O rio em “As Aventuras de Huckleberry Finn” de Mark Twain é tanto um símbolo de liberdade quanto um comentário sobre as divisões raciais e sociais da América.

Símbolos podem ser usados para aumentar a tensão ou fornecer resolução em sua história.

Em “1984”, o Grande Irmão é inicialmente um símbolo de opressão, mas também se torna um símbolo de resistência para o protagonista Winston.

Mais uma vez, o equilíbrio é altamente recomendado.

Embora o simbolismo possa enriquecer uma história, ele não deve sobrecarregá-la a ponto de tornar a narrativa confusa ou pretensiosa.

A autenticidade é crucial quando se lida com detalhes, especialmente em gêneros como ficção histórica ou realista.

A pesquisa também será sua amiga nesse aspecto.

Lembre-se que o objetivo é tornar tudo isso orgânico, ou seja, integrado à trama e não forçado.

5. Crie um Mundo Inesquecível

A criação de um mundo inesquecível é o que separa as histórias que viram tatuagens das que não passam de fumaça.

Um universo literário bem-construído é uma entidade viva que respira, cresce e evolui.

E transborda para fora do próprio livro.

Considere a ambientação como um personagem secundário em sua história, capaz de oferecer possibilidades infinitas para conflitos, temas e desenvolvimento de personagens.

Quem nunca sentiu vontade de andar por um castelo de Hogwarts?

J.K. Rowling criou um lugar tão rico e repleto de detalhes que se tornou tão famoso quanto os personagens que habitam nele.

E uma técnica que ajuda nisso é determinar as regras e limitações claras que governam como tudo funciona.

Por exemplo, as escadas que mudam de lugar servem para encantar, mas também para confundir e desafiar os personagens.

O Salão Principal tem um teto arrebatador que imita o céu, mas a magia ali é regida por regras estritas, como a impossibilidade de conjurar comida do nada.

Há também restrições sobre onde os alunos podem ir.

A Floresta Proibida e a seção restrita da biblioteca são exemplos, estabelecendo limitações que, quando quebradas, avançam a trama de maneiras significativas.

Mantenha a consistência na sua ambientação, pois é ela quem ajuda a manter a suspensão da descrença em seu mundo.

Se o leitor para de acreditar que é possível, ele abandona o livro.

Hogwarts, assim como a Terra Média, Panem e Westeros, são mundos complexos com regras, geografia e história próprias, mantidas de forma consistente ao longo de suas séries.

Com isso, você também adiciona profundidade.

A outra maneira de fazer o leitor mergulhar em sua ambientação é através de subtextos, aquela camada de significado abaixo da superfície da narrativa.

Em “1984”, a presença onipresente dos cartazes de “O Grande Irmão está de olho em você” não serve apenas como um lembrete da vigilância constante, mas também como um subtexto para a supressão da individualidade e do pensamento livre.

A atmosfera opressiva não é apenas física, mas psicológica, criando um subtexto de medo e conformidade que permeia todo o livro.

Da mesma forma, a cidade de Maycomb não é apenas um cenário sulista nos Estados Unidos.

Ela representa um microcosmo dos problemas raciais e sociais da América.

O simples ato de Atticus Finch sentar-se do lado de fora do tribunal para proteger Tom Robinson carrega um subtexto sobre a luta contra a injustiça e o racismo sistêmico.

Um mundo bem-construído permite que os leitores descubram mais sobre ele a cada releitura.

Não se trata apenas de um lugar, mas de um ecossistema cheio de seus próprios conflitos e tensões.

Arrakis, em “Duna”, é o palco de conflitos religiosos, políticos e ambientais que são intrínsecos à trama.

Um mundo inesquecível também influencia a linguagem e o diálogo no livro.

Em “Laranja Mecânica”, Anthony Burgess cria uma gíria futurista que, embora estranha no início, se torna parte integrante da experiência de imersão na história.

Por fim, você não precisa dar todas as respostas.

Na verdade, carregar seu universo com um pouco de mistério pode torná-lo ainda mais envolvente.

Em “As Crônicas de Gelo e Fogo”, a Muralha não é apenas uma grande estrutura de gelo que separa os Sete Reinos das terras ao norte, ela é também um enigma.

Quem a construiu? Que ameaças ela guarda?

O autor oferece algumas respostas, mas deixa muito em aberto, aumentando o fascínio do leitor pelo mundo que ele criou.

Outro belo exemplo é “O Nome do Vento”, de Patrick Rothfuss.

A Universidade é um lugar de aprendizado para o protagonista, Kvothe, mas também abriga muitos mistérios.

O subterrâneo contém a Pilha, uma biblioteca com seções proibidas e conhecimento perigoso.

Além disso, há referências a “portas de pedra”, que ninguém pode abrir, acrescentando outra camada de mistério à ambientação.

“O Oceano no Fim do Caminho”, de Neil Gaiman, é um excelente exemplo onde o mundo sobrenatural existe em paralelo com o mundo real, mas nem tudo é explicado.

Enfim, criar um mundo inesquecível é uma das tarefas mais desafiadoras e gratificantes que um escritor pode empreender.

Isso requer atenção meticulosa aos detalhes, uma compreensão profunda dos elementos da narrativa e a habilidade de costurar tudo em uma tapeçaria coesa e envolvente.

Quanto isso é feito da forma correta, o resultado é um mundo que vive e respira, proporcionando um lar para personagens que também se tornará uma casa eterna na mente e no coração dos leitores.

Alguns deles vão até mesmo relutar em deixar o mundo que você criou.

Outros vão fazer de tudo para visitar o parque de diversões baseado nos cenários do livro.

Até agora ainda estamos no campo subjetivo da preparação: tema, enredo, criação de personagens e ambientação como ingredientes para criar um caldo delicioso.

No próximo capítulo, a quinta parte desta série, vamos começar a prepará-lo, abordando a qualidade da escrita.

Além do poder mercadológico, o poder literário é uma peça importante na anatomia de um Best-Seller.

Adoraria ouvir você e sua experiência sobre a construção de universos, mundos e cenários em tramas de ficção.

Quais livros você considera exemplares em termos de ambientação?

Compartilhe suas opiniões nos comentários abaixo.

Sua participação enriquece a conversa e ajuda novos escritores.

Crie cenas irresistíveis, diálogos inesquecíveis e cenários incríveis.

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1 comentário em “Anatomia de um Best-Seller: Parte IV – Ambientação”

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