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Anatomia de um Best-Seller: Parte II – Enredo

No artigo anterior, o primeiro da série “Anatomia de um BestSeller”, esmiuçamos o poder dos temas universais, a cola que faz um livro transcender o papel e marcar leitores para sempre.

No capítulo de hoje, vamos falar de ENREDO.

Se considerarmos o tema como o Sol, o enredo pode ser comparado aos planetas que orbitam em torno desse astro central, cada um com suas próprias características, movimentos e atmosferas.

Composto por personagens, conflitos, reviravoltas e resoluções, o enredo também possui múltiplas facetas.

Cada um desses elementos é atraído e iluminado pelo tema e premissa centrais, que atuam como a força gravitacional da história.

Nos últimos 12 anos, como autor e como editor na Casa do Escritor, tenho estudado a fundo as características que fazem com que livros caiam no gosto popular.

Nesta série, trago para você 10 ingredientes que tornam livros inesquecíveis com exemplos e dicas práticas para você aprimorar sua escrita.

Na primeira parte, você descobriu como gerar ideias de temas, como conectar o tema à premissa e a premissa ao conflito principal.

O segundo grande aprendizado que quero compartilhar com você é…

“Enredo é a Chave para Transformar Simples Histórias em Lendas”

O tema e a premissa estão bem amarrados?

Hora de desdobrar o enredo.

Enredo é a organização dos elementos narrativos de uma maneira capaz de guiar o leitor através da trama, mantendo a tensão e o interesse ao longo do caminho.

Sem isso, até mesmo as ideias mais criativas podem se perder em um mar de possibilidades narrativas.

Isso posto, aqui vão 6 dicas para desenvolver seu enredo com maestria:

1. Estruture o Enredo Base

Há muitos professores de escrita criativa que tomam enredo como os acontecimentos do começo, meio e fim, a famosa estrutura de três atos.

É o caminho tradicional, que funciona.

No entanto, vou te revelar um modelo infalível, composto de quatro partes, que vai facilitar muito sua vida.

As quatro partes são:

“Quem, Quando, Agora e Como”

“Quem” é o protagonista?

O que acontece que o tira da normalidade de seu mundo comum, representado pelo “quando”?

O que ele terá que enfrentar para alcançar seus objetivos, representado pelo “agora”.

E como termina a história, representado no “como”?

Muitos autores se perdem ou têm bloqueios criativos, justamente porque não sabem como termina sua história.

Ter uma ideia clara de como a história acaba dará a você um ponto de chegada, facilitando o desenvolvimento dos eventos que levarão a esse desfecho.

Tomemos o exemplo de Diário de uma Paixão”, de Nicholas Sparks, um dos romances mais vendidos de todos os tempos (atenção: contém spoilers):

Quem: Noah Calhoun, um veterano da Segunda Guerra Mundial que nunca esqueceu seu primeiro amor, Allie Nelson.

Quando: Anos depois de seu romance de verão na juventude, Noah reencontra Allie, que agora está noiva de outro homem.

Agora: Noah deve decidir se vai lutar pelo amor que uma vez tiveram, apesar das circunstâncias atuais e das expectativas sociais.

Como: Noah lê para Allie, que sofre de Alzheimer, a história de seu amor de juventude a partir de um diário que ele escreveu.

Ao montar um enredo no modelo “quem, quando, agora e como”, você nunca mais vai se perder para contar qualquer história.

Com o protagonista (quem), evento que o tira do mundo comum (quando), o que isso desencadeia (agora) e (como) isso termina bem traçados, é hora de ampliar a estrutura.

2. Estruture a Trama Principal

Estruturas narrativas variam em número e função das partes.

A Jornada do Herói completa, por exemplo, possui 18 partes.

A Estrutura Hollywoodiana é dividida em 8 sequências.

Eu levantei 33 estruturas narrativas em meu livro Como Contar Histórias Fabulosas – Estruturas Narrativas para Best-Sellers”. 

Você pode usá-las para desenvolver a trama principal e também em subtramas, como veremos mais adiante.

Prenda seu leitor com uma ameaça, na qual o protagonista precisa superar um grande desafio para alcançar seus objetivos.

Você pode se ater à estrutura de 3 atos das oficinas de escrita tradicionais, com exposição, desenvolvimento, resolução.

Ou seguir a Meta Narrativa, a “mãe” de todas as narrativas, segundo Christopher Booker, com 5 partes.

Por exemplo, no romance “Cinquenta Tons de Cinza” de E.L. James, a estrutura da Meta Narrativa seria:

Parte 1 – Antecipação

Anastasia Steele, uma estudante universitária tímida e inocente, é enviada para entrevistar o magnata Christian Grey para o jornal da faculdade.

A atração mútua é instantânea, mas Christian avisa que ele não faz o “romance convencional”.

Parte 2 – Sonho

Anastasia e Christian embarcam em um relacionamento íntimo, explorando desejos e fantasias através do BDSM.

Anastasia se sente cada vez mais próxima de Christian e começa a acreditar que pode ser o relacionamento de seus sonhos.

Parte 3 – Frustração

Anastasia começa a perceber a complexidade do relacionamento e as demandas emocionais e físicas que Christian impõe.

Ela se sente insegura e começa a questionar se ela pode atender às expectativas e exigências de Christian.

Parte 4 – Pesadelo

O relacionamento atinge um ponto crítico quando Christian aplica um castigo físico em Anastasia contra sua vontade.

Isso a faz questionar toda a relação, sentindo que talvez nunca possam ter um relacionamento “normal” e amoroso.

Parte 5 – Resolução

Anastasia decide terminar o relacionamento para preservar seu bem-estar emocional, mas a história deixa claro que a atração e os sentimentos entre eles ainda são fortes.

Leia:  Escrever é um Hábito

O livro termina de forma ambígua, criando espaço para a exploração de seu relacionamento nos livros subsequentes, já que se trata de uma série.

Em tempo: em minha oficina de escrita criativa “A Joia da Coroa”, o processo se baseia em “O Código da Vinci” e “Cinquenta Tons de Cinza”, livros que juntos venderam mais de 200 milhões de cópias.

Com a trama principal esboçada, você também pode aprofundar subtramas e o desenvolvimento de personagens (tema do próximo capítulo desta série), mantendo um foco claro no tema ou mensagem global da história

3. Estruture Sub Tramas

Subtramas são mais do que apenas acréscimos à sua história, são vitais para adicionar camadas de complexidade e profundidade.

Também são portas para explorar o tema central de diferentes ângulos.

Isso dá ao leitor uma compreensão mais rica.

Além disso, subtramas criam um mundo mais envolvente.

Você pode criar personagens secundários memoráveis, além, obviamente, de dar mais opulência à trama principal.

Uma dica:

Vamos supor que você criou a estrutura da trama principal, a do protagonista, seguindo a estrutura do Renascimento, base dos Best-Sellers de Dan Brown e E.L. James.

Você pode usar outra estrutura, como A História Circular, de Dan Harmon, para estruturar uma trama paralela, do mentor, do ajudante, do interesse amoroso, ou até mesmo do antagonista, por exemplo.

E refletir em que ponto essas histórias se cruzam.

Sigamos no exemplo do livro de Dan Brown, repetindo a Meta Narrativa, para contar a história do vilão.

Para Sir Leigh Teabing, a estrutura da Meta Narrativa poderia ser a seguinte:

Parte 1 – Antecipação

Teabing, um rico historiador e Grão-Mestre de uma sociedade secreta, acredita que descobriu o segredo do Santo Graal, que poderia abalar as fundações da Igreja Católica.

Ele antecipa o momento em que poderá revelar essa verdade ao mundo.

Parte 2 – Sonho

Quando Robert Langdon e Sophie Neveu chegam à sua mansão em busca de respostas, Teabing vê a oportunidade perfeita para concretizar seus planos.

Ele acredita que, com a ajuda deles, poderá finalmente trazer à luz o segredo do Graal.

Parte 3 – Frustração

Embora inicialmente as coisas pareçam estar indo conforme planejado, Teabing começa a enfrentar obstáculos.

A polícia está em seu encalço, e ele precisa agir rápido para garantir que o segredo seja revelado.

Parte 4 – Pesadelo

Seu plano começa a desmoronar quando ele é capturado e desmascarado por Langdon e Neveu.

O sonho de expor o que ele acredita ser a verdadeira história do cristianismo está em perigo de nunca ser realizado.

Parte 5 – Resolução

Teabing é detido e seu plano fracassa. Seu sonho de revelar o que ele considera a verdade sobre o Santo Graal e, por extensão, sobre o cristianismo, é destruído.

Ele é derrotado, mas sua paixão pelo assunto e suas fortes crenças permanecem inabaladas, mesmo que ele não tenha conseguido expor isso ao mundo.

Ao gerar estruturas independentes para subtramas, você identifica os pontos de interseção.

E isso ajuda a criar narrativas multifacetadas, que estimulam o intelecto do leitor.

No entanto, para que sua estrutura principal seja realmente apaixonante…

4. Estruture Pontos de Virada Surpreendentes

Pontos de virada são os motores da sua história.

Os famosos “plot twists” são aqueles momentos-chave, que reorientam a narrativa e mantêm o leitor grudado no livro.

Identificá-los com clareza é crucial para entender a dinâmica da sua história.

Segundo Eric Edson, roteirista americano, sua história precisa ter pelo menos duas grandes viradas, a primeira na virada do primeiro para o segundo ato.

E a segunda no clímax da história, antes da virada para o terceiro ato.

Para Edson, essas viradas precisam ser capazes de surpreender tanto o protagonista, quanto o leitor.

Ou seja, uma boa virada não é apenas algo que acontece aos personagens, mas que também transforma a compreensão do leitor em relação ao mundo narrativo.

Em “Diário de uma Paixão”, o reencontro de Noah e Allie, após anos de separação, é o primeiro ponto de virada, o catalisador para o ressurgimento de antigos sentimentos e conflitos, definindo o curso para o resto da história.

E a revelação sobre a doença é o segundo ponto de virada.

Quando fica claro que Allie sofre de Alzheimer, e Noah está lendo para ela a história deles para ajudá-la a lembrar, isso muda completamente a perspectiva do leitor sobre a narrativa e aumenta a carga emocional do enredo.

No entanto, a criação de viradas surpreendentes depende de saber o que acontece aos personagens…

5. Estruture os Personagens

Personagens são o coração da sua história.

Na próxima parte desta série, vamos nos aprofundar em como criar personagens capazes de se conectar com os leitores, o que é fundamental na construção de um Best-Seller.

Aqui, vamos nos ater ainda a parte estrutural.

Para desenvolvê-los de forma eficaz, crie fichas detalhadas que contemplem suas histórias de vida, motivações e como se entrelaçam com a trama principal.

Isso oferece uma base sólida para a construção de personagens tridimensionais que ressoam com os leitores, tornando a narrativa mais impactante e memorável.

Se você pensar com carinho e criar uma história com começo, meio e fim de cada personagem, terá uma visão mais abrangente do todo, e poderá construir uma narrativa muito mais poderosa.

Leia:  O Banquete Criativo ou O Escritor Em Busca Da Originalidade

Bom, você já tem tema, premissa, enredo e uma estrutura base da trama, das subtramas, com seus pontos de virada e interseção, além das fichas completas de todos os personagens.

Agora é hora de ir ainda mais fundo no plano…

Prenda seu leitor com uma ameaça, na qual o protagonista precisa superar um grande desafio para alcançar seus objetivos.

6. Estruture Sequências e Cenas

Uma escaleta completa é uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento de sequências, as unidades narrativas que compõem a sua trama.

Sequências são conjuntos de cenas que funcionam como mini-arcos narrativos dentro da sua história, cada uma com seu próprio conflito e resolução que contribuem para o arco geral da trama.

Elas são fundamentais para manter o ritmo e o engajamento do leitor, servindo como “capítulos” em uma metanarrativa mais ampla.

Ao desenvolver sequências, pense em como cada uma delas pode servir para avançar a trama principal ou explorar uma subtrama de forma significativa.

Pense assim: que sequências preciso incluir para contar a parte sobre “a recusa do chamado”, dentro da estrutura da Jornada do Herói.

Cada sequência deve ter um objetivo narrativo claro em relação à estrutura e à narrativa em si.

Pode ser: apresentar um novo personagem, resolver um conflito específico ou avançar a trama principal.

Saber o que você quer alcançar com cada sequência ajudará a manter o foco e a coesão.

Boas sequências contêm uma dose de tensão ou conflito que precisa ser resolvido.

Isso mantém o leitor engajado e fornece um senso de progressão e crescimento ao longo da narrativa.

Varie o ritmo para dar ao leitor tempo para respirar e refletir, o que pode tornar as partes mais emocionantes ainda mais impactantes.

E lembre-se: sequências muito longas podem cansar o leitor, enquanto as muito curtas podem parecer abruptas ou insatisfatórias.

Eu recomendo sequências de 3 a 5 cenas, não como regra, mas como um parâmetro sugestivo, da mesma forma que estabelecer o número de palavras de um capítulo antes de escrevê-lo.

Encontre um equilíbrio que sirva à sua história.

Com essa lista de cenas detalhada dentro de cada sequência, dentro de cada parte da estrutura macro, é hora de desenvolver as cenas.

Mas não comece a escrever ainda, o que vamos nos aprofundar na quinta parte desta série.

Você pode ficar tentado a sentar-se e começar a escrever a partir das sequências e lista de cenas.

Pode até fazer isso, pois já tem uma base segura de onde partir.

Mas, lembra da necessidade de mostrar em vez de contar, ou seja, de fazer o leitor imergir na história em vez de apenas contá-la?

Se você partir direto para mostrar, poderá se perder, esquecer ou até se ver diante de um bloqueio criativo.

Não escreva a cena completa ainda, nem os diálogos.

Faça uma lista rápida dos acontecimentos como se fosse uma lista de tarefas com bullets.

Algo do tipo:

  • Grey pega uma venda de tecido.
  • Ele se aproxima de Anastasia e conversa sobre o que está prestes a fazer.
  • Com o consentimento dela, ele amarra a venda em seus olhos.
  • Anastasia experimenta diversas sensações, amplificadas pela falta de visão.
  • Grey remove a venda e os dois compartilham um momento de intimidade e confiança.

Eu explico essa técnica em detalhes em um artigo no meu blog chamado “Conte Antes de Mostrar”.

Bom, mesmo com uma escaleta em mãos, é importante entender que ela não é um documento imutável.

À medida que você desenvolve suas cenas, novas ideias podem surgir, exigindo ajustes na escaleta.

Isso é não apenas normal, mas também uma parte saudável do processo criativo.

O objetivo é ter um mapa flexível que oriente sua escrita, permitindo que você faça desvios criativos quando necessário.

A estruturação de um livro é uma parte complexa da pré-escrita, ou seja, da fase de planejamento.

Se você é um autor jardineiro, que escreve instintivamente como R.R. Martin, o enredo base pode ser suficiente para guiar sua escrita.

Mas, se eu fosse você, iria mais a fundo no detalhamento, como fez J.K. Rowling, que detalhou todos os livros da série Harry Potter antes de escrever o primeiro.

A princípio, ter uma escaleta detalhada pode parecer uma abordagem que restringe a liberdade criativa.

No entanto, é exatamente o contrário.

A estruturação age como um facilitador que elimina o medo da página em branco e permite que o escritor se concentre na qualidade da narrativa.

Ter um plano oferece um ambiente seguro para experimentar com linguagem e estilo.

Isso também simplifica o processo de revisão, pois facilita identificar onde ajustes são necessários.

E certamente vai te ajudar a transformar sua história em uma lenda.

Com uma estrutura desse porte em mãos, o próximo ingrediente do Best-Seller, que abordaremos na parte III, é a construção de personagens conectáveis.

Adoraria ouvir você e sua experiência sobre enredo.

Quais livros você considera exemplares em termos de enredo?

Compartilhe suas opiniões nos comentários abaixo.

Sua participação enriquece a conversa e ajuda novos escritores.

Prenda seu leitor com uma ameaça, na qual o protagonista precisa superar um grande desafio para alcançar seus objetivos.

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